O governo de Mato Grosso do Sul prevê crescimento de cerca de 10% na balança comercial estadual em um horizonte de dois anos após a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE). A assinatura do tratado está prevista para o próximo sábado, 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai.
“Não fizemos simulações para ver qual o tamanho desse mercado, mas acreditamos que, em um curto espaço de tempo, conseguiremos aumentar, no mínimo em dois anos, a participação na balança comercial em torno de 10%, com a consolidação de toda a questão do Mercosul”, disse o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck.
Segundo ele, o tratado beneficia diretamente a pauta exportadora do Estado, que tem um conjunto de produtos sobre os quais as tarifas devem ser reduzidas. “Está muito alinhado com o perfil da economia de Mato Grosso do Sul”, diz o secretário.
Nesse contexto, os produtos com potencial de ampliar as exportações em curto prazo incluem a celulose sul-mato-grossense, líder tanto das exportações brasileiras quanto da balança comercial estadual. A tendência é que o produto se torne ainda mais competitivo com o acordo. Outro item com potencial de elevar as vendas externas é a carne bovina dentro do padrão europeu. “Já temos várias propriedades credenciadas para a União Europeia. Também fazemos exportação de couro para a Itália”, afirmou.
Entre outros produtos destacam-se ainda citrus, carne de frango e carne suína. Além disso, o acordo abre janela para exportação de etanol, cuja participação ainda é modesta na comunidade econômica europeia que vem tentando descarbonizar a economia.
“Obviamente, a comunidade econômica europeia também avalia a possibilidade de ampliar suas exportações para o Brasil. Mato Grosso do Sul tem comprado muitos equipamentos para a indústria de celulose, e isso é um ponto importante”, afirma o secretário.
Potencial do mercado bilateral
A União Europeia respondeu em 2025 por cerca de 13% da matriz de exportação de Mato Grosso do Sul. Do total de US$ 1,30 bilhão exportado, cerca de 95% tiveram origem no agronegócio, evidenciando a relevância estratégica desse setor. No total, foram 3,76 milhões de toneladas de produtos enviados aos países europeus.
Ao mesmo tempo, as importações estaduais do bloco europeu totalizam 77 mil toneladas de produtos, somando US$ 492 milhões. Com isso, a balança comercial sul-mato-grossense fechou o ano passado com superávit de US$ 812 milhões com o bloco europeu – que foi o segundo mercado mais importante para as exportações sul-mato-grossenses, incluindo a Ásia, América do Norte, Oriente Médio, África, Oceania e Mercosul. O estado manteve relações comerciais com 23 países da União Europeia em 2025, sendo 20 como destinos de exportações e 23 como origens de importações, conforme dados da Semadesc.
A celulose ocupou o primeiro lugar no ranking das exportações para UE, com 1 milhão de toneladas e receita de US$ 627 milhões, respondendo por 48,12% do valor total apurado. Em seguida, aparecem os farelos de soja, com 917 mil toneladas e US$ 310 milhões, representando 23,84% do total. Em terceiro lugar está a carne bovina, com 14 mil toneladas exportadas, totalizando US$ 126 milhões e uma fatia de 9,68% das exportações estaduais para o bloco.
Do lado das importações provenientes da Europa, os destaques foram maquinários para uso nas indústrias de papel e celulose (US$ 171 milhões), equipamentos de aquecimento e resfriamento (US$ 146 milhões), caldeiras de geradores de vapor (US$ 108 milhões), além de outros equipamentos e implementos industriais.
Entre os países europeus que mais compraram produtos sul-mato-grossenses estão Holanda (31,7%) e Itália (31,4%) em 2025. Já a Finlândia, que domina a tecnologia de produção de máquinas para a indústria de celulose, forneceu 67% dos produtos comprados da União Europeia por Mato Grosso do Sul.
Segundo o Conselho Europeu, o Brasil é parceiro estratégico da União Europeia desde 2007. Além de ser o segundo maior parceiro comercial do Brasil, o bloco europeu é seu maior investidor estrangeiro, com mais de € 300 bilhões já investidos por empresas e investidores europeus em participações em empresas, fábricas, bancos, infraestrutura, energia, indústria, serviços e agronegócio
Salvaguarda da China
O secretário da Semadesc analisou ainda a distribuição geográfica das exportações do Estado e avaliou que o acordo “é um bom alento” para fazer frente à salvaguarda da China à carne bovina. Na virada do ano, em 31 de dezembro de 2025, a China, principal parceiro comercial de Mato Grosso do Sul, responsável por cerca de 50% das exportações estaduais, estabeleceu uma cota anual inicial de 1,1 milhão de toneladas para compras de carne bovina do Brasil. As exportações que ultrapassarem esse limite pagarão sobretaxa de 55%. A medida entrou em vigor em 1º de janeiro e tem duração prevista de três anos.
Diversificação de mercados
A consultora de economia da Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul), Eliamar Oliveira, reforçou ainda o otimismo com o acordo que, segundo avalia, deverá ampliar de forma significativa o acesso dos produtos brasileiros ao mercado europeu, especialmente os do agronegócio. Para ela, o livre comércio entre os dois blocos representa uma oportunidade estratégica para diversificar destinos de exportação e reduzir a dependência da China, principal parceiro de Mato Grosso do Sul, diante das incertezas do comércio internacional.
