Especialistas comentam sobre os efeitos e uma paciente revela a luta com a alimentação e o bem-estar

O uso de canetas emagrecedoras se tornou uma realidade no Brasil. Logo, os efeitos estão sendo estudados e os possíveis danos avaliados a longo prazo. Recentemente, a revista médica BMJ (British Medical Journal) apresentou um estudo indicando que a interrupção do uso de medicamentos emagrecedores tende a levar ao ganho de peso novamente. A taxa de recuperação de peso alcançou 0,4 kg por mês após a suspensão do tratamento.

A endocrinologista Flávia Tortul explica que a obesidade é uma doença crônica, com mecanismos homeostáticos que defendem o peso mais elevado: ao retirar o agonista de GLP-1 (e/ou GIP), há aumento de apetite e “food noise”, redução de saciedade, maior ingestão calórica e tendência à recuperação de massa gorda; em paralelo, se o paciente usou a medicação como único pilar, sem estratégias sustentáveis de alimentação, atividade física e manejo do ambiente alimentar, o componente comportamental acelera a recuperação do peso. Ensaios e extensões mostram que, após a retirada, ocorre recuperação relevante do peso e parte dos benefícios cardiometabólicos se atenua.

“A relação entre interrupção de agonistas do receptor GLP-1 e ganho de peso é consistente na literatura: quando o tratamento é suspenso, a maioria dos pacientes recupera uma parcela importante do peso perdido. No STEP 1 (semaglutida 2,4 mg), após a interrupção, participantes recuperaram grande parte do peso ao longo do seguimento, e marcadores cardiometabólicos também regrediram parcialmente. No SURMOUNT-4 (tirzepatida), a retirada levou a reganho substancial, enquanto a manutenção do fármaco sustentou e ampliou a perda de peso.”

“A revisão sistemática na revista científica BMJ quantificou o fenômeno de forma ampla, estimando recuperação média mensal após cessação de medicamentos antiobesidade e sugerindo que, para muitos, o retorno ao peso basal pode ocorrer em menos de dois anos, com reganho mais rápido com incretínicos mais potentes, pois quanto maior for a perda de peso, maior também é a recuperação de peso bruto (pois no placebo praticamente não há perda de peso, enquanto, com os medicamentos, a perda é considerável, fazendo, às vezes, uma má interpretação de que, pelo uso da medicação, existe maior recuperação; e, na verdade, a recuperação é praticamente a mesma quantidade de peso perdida)”, explica a profissional.

Canetas para emagrecer têm efeitos colaterais

Entre os efeitos colaterais mais comuns nos ensaios com semaglutida e tirzepatida, estão os gastrointestinais, como náuseas, diarreia, vômitos e constipação, geralmente leves a moderados e mais frequentes na fase de escalonamento de dose; uma minoria descontinua por eventos adversos.

Também se monitora o risco de colelitíase/colecistite — termo médico para a formação de cálculos (pedras) na vesícula biliar —, associado tanto à perda de peso rápida quanto ao uso, além de eventos raros como pancreatite, cuja relação causal ainda é debatida em nível individual, mas é um evento de atenção clínica e contraindicações/alertas específicos por classe.

Na prática, o ponto-chave é: eficácia alta exige seleção adequada, titulação correta, educação do paciente e acompanhamento.

“O tratamento da obesidade precisa ser personalizado, porque a obesidade é heterogênea em determinantes (genética, ambiente, padrões alimentares, sono, saúde mental, comorbidades, fármacos em uso, ciclo de vida, sarcopenia/funcionalidade) e em objetivos (redução de risco cardiometabólico, melhora de apneia, esteatose hepática, fertilidade, dor/funcionalidade).”

“A evidência mostra que as medicações podem ser altamente eficazes, mas a manutenção costuma exigir estratégia de longo prazo: continuidade do fármaco quando indicado ou plano estruturado de transição (nutrição com alta densidade proteica e fibras, treino resistido para preservar massa magra, sono, manejo de gatilhos e do ambiente alimentar), com metas realistas e acompanhamento. Ensaios de retirada e revisões reforçam que interromper sem um plano aumenta a probabilidade de reganho”, pontua Tortul.

Efeito rebote previsto, avalia nutricionista

Isabella Alves, nutricionista e especialista em emagrecimento e comportamento alimentar, pontua que o ganho de peso após a suspensão do tratamento é previsto em pelo menos 10% do peso perdido com a medicação.

A inserção das canetas emagrecedoras como “tendência” no Brasil exigiu que a categoria da nutrição se atualizasse para atender e entender a estratégia certa para cada paciente.

“Trabalhamos para que o paciente não tenha o efeito rebote de maneira muito acentuada após o desmame da medicação. Quando o desmame é feito de forma correta e estratégica, o paciente consegue manter o peso perdido. Quando a medicação é suspensa, o metabolismo tende a desacelerar e a fome a voltar; se o paciente não tiver feito a reeducação alimentar junto do tratamento, há mais probabilidade de voltar ao peso anterior.”

Há perda de massa muscular associada ao uso sem acompanhamento?

“Sim. Sem acompanhamento, o paciente come menos com o uso da medicação, e isso não significa que ele coma melhor. A maioria da população tem uma alimentação com deficiência de proteína, pela rotina corrida e pela situação econômica no país, e, quando utiliza a medicação, consequentemente come ainda menos proteína. A proteína é a responsável pela produção e pela preservação da massa muscular em nosso organismo.”

“Por isso, é importantíssimo um acompanhamento com nutricionista para esse paciente calcular a quantidade de proteína que deve ser ingerida e da forma que o paciente se sente mais confortável, para diminuir a fraqueza e a perda de massa muscular.”

Dependência psicológica do medicamento

A nutricionista ainda indica que pode ocorrer dependência psicológica do medicamento quando não há sinais de mudança de comportamento em relação à alimentação.

“Usou a medicação e não mudou hábitos, pode ficar refém da medicação para controlar a fome e a saciedade. Dá aquela sensação de que não é capaz de emagrecer sozinho, mas conseguimos mudar o comportamento e os hábitos somente através da alimentação, sem a medicação.”

Necessidade de mudar hábitos

A especialista reforça que o medicamento não ensina a comer, organizar hábitos ou a percepção em relação à comida. O medicamento favorece a saciedade. “Ela [paciente] vai emagrecer por estar ingerindo menos quantidade de comida, isso é fato, mas, quando ocorre o desmame da medicação e o paciente não melhora a alimentação em questão de qualidade, volta a comer a mesma quantidade ou até mais do que anteriormente, sendo assim, voltando ao peso inicial.”

“Existe, sim, um caminho que funciona de verdade, que, independentemente da medicação, vai funcionar, que é a mudança de hábitos e comportamentos em relação à alimentação. O medicamento ajuda muito aquele paciente obeso que já perdeu os sinais de fome e saciedade produzidos pelo próprio organismo, mas ele precisa mudar a qualidade da alimentação e os hábitos para ter uma vida mais saudável. É importante entrar em pauta que a maioria enxerga como fazer ‘dieta’, e não necessariamente todo mundo precisa fazer dieta, pois o que precisa é ter uma alimentação equilibrada e com boa qualidade, que seria inserir frutas, verduras, carboidratos de boa qualidade e aumentar o consumo de proteína nas refeições”, indica.

‘Engordei 9 kg de novo’

Professora de uma escola particular, que prefere anonimato, revela que engordou 9 kg após a suspensão do medicamento. Ela decidiu parar por questões financeiras e porque já havia emagrecido o valor da meta. O ganho de peso aconteceu em dois meses.

“Sempre tive sobrepeso, mas não obesidade; me considero ‘cheinha’, pois tenho 1,70 de altura e, na balança, em média, 84 ou 85 quilos; já cheguei aos 90 kg. Como tenho seios fartos, parece que eu sou mais gorda do que meu tamanho. Desde a adolescência, já tinha feito de tudo para emagrecer, como dietas malucas ou ficar horas sem comer. É um karma que a maioria das mulheres tem: tentar emagrecer a todo custo”, descreve a docente.

“Foi, então, quando comecei a pesquisar sobre as canetas para diabetes. Comecei com a Ozempic e depois migrei para o Mounjaro, em junho de 2024. Tive acompanhamento de um endocrinologista e, no início, não tive um emagrecimento grande, mas depois saí dos 85 quilos para 64 quilos. Fiquei magra como nunca tinha visto antes. Foi mais de um ano de emagrecimento.”

Durante o tratamento, a paciente mudou a rotina de alimentação e treinava na academia cerca de três vezes na semana, até que decidiu entrar na fase de desmame. A aplicação das doses passou a ter intervalo maior até ela suspender completamente.

Relação com a alimentação

A relação com a alimentação começou a mudar durante a aproximação do fim das aulas de 2025. “O ano letivo já estava me enlouquecendo, pois leciono em duas escolas. Eu acabei me descuidando e comendo doces, entrando na alimentação errada que eu já tinha. Foi quando o peso na balança começou a voltar. Me descuidei. Não engordei tudo o que perdi, foram 9 kg ganhos em três meses.”

“Não culpo o medicamento, culpo a minha alimentação errônea e descompensada. Agora, voltei ao endocrinologista, fazendo novos exames, para que eu elimine esses 10 kg. Eu já organizei minha rotina para conseguir treinar à noite e já mudei meus hábitos, na expectativa de não impactar a minha rotina de trabalho.”

O resultado não surpreende a ciência, mas choca quem ainda enxerga a obesidade como uma simples questão de força de vontade. Os casos indicam uma mensagem clara: não se trata de preguiça ou fracasso pessoal, mas da biologia e do comportamento humano.

“O ‘efeito rebote’, na verdade, é a comprovação de que a obesidade é uma doença crônica, pois a recuperação de peso não é pelo uso de medicamento, mas, sim, porque o efeito do medicamento já não está mais presente, controlando as alterações biológicas que levam à obesidade. Portanto, essa recuperação de peso é biológica e comportamental, com predominância biológica”, reforça a endocrinologista Flávia Tortul.

Organismo masculino

O urologista e especialista em saúde do homem Henrique Coelho esclarece que o problema não está exatamente no medicamento, mas na forma como ele vem sendo utilizado. “O vilão não é a caneta emagrecedora, mas o uso sem prescrição, sem exames prévios e sem monitoramento dos impactos que pode causar no organismo”, alerta.

O especialista explica que o organismo masculino depende de um equilíbrio hormonal delicado, especialmente da testosterona. Mudanças bruscas no peso e na nutrição podem desregular esse sistema de diversas formas.

“A restrição calórica severa pode sinalizar ao corpo um estado de ‘fome’, levando à diminuição da produção de testosterona. Essa desregulação hormonal pode causar queda da libido, disfunção erétil e até redução da qualidade do esperma”, pontua.

O especialista alerta também que o ciclo de emagrecimento acelerado seguido de ganho rápido de peso pode trazer impactos importantes, tanto no curto quanto no longo prazo.

No curto prazo, os principais efeitos incluem:

  • Deficiências nutricionais (vitamina D, B12, zinco, magnésio);
  • Perda de massa muscular;
  • Cansaço excessivo;
  • Queda da libido;
  • Alterações de humor e disposição.

No médio e longo prazo, os riscos aumentam:

  • Desregulação hormonal, com possível queda da testosterona;
  • Disfunção erétil;
  • Redução da fertilidade masculina;
  • Maior risco metabólico;
  • Dificuldade em manter o peso a longo prazo;
  • Possível sobrecarga renal em pacientes predispostos.

“Quando há indicação médica, o tratamento pode ser feito, mas sempre com acompanhamento, exames e mudanças reais no estilo de vida. O homem precisa entender que emagrecer rápido demais pode custar caro no futuro”, conclui o Dr. Henrique Coelho.

Faça acompanhamento especializado

Uma pesquisa internacional liderada por pesquisadores da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e da FSP-USP (Faculdade de Saúde Pública), publicada na revista científica Obesity, revela um cenário que avança com rapidez em diversos países: o uso de medicamentos desenvolvidos para tratar diabetes tipo 2 e obesidade por pessoas sem diagnóstico ou condições metabólicas associadas às doenças.

O estudo envolve especialistas do Brasil, Estados Unidos, Dinamarca e Japão e explora os impactos sociais, culturais, emocionais e comportamentais do uso das canetas emagrecedoras.

Além disso, o estudo aborda a ascensão das canetas emagrecedoras entre o público estudado, indicando que o uso está fortemente ligado à dinâmica das redes sociais. Plataformas digitais, influenciadores e celebridades têm impulsionado a popularização desses medicamentos, reforçando a ideia de que a magreza é sinônimo de sucesso, disciplina e autocuidado.

A pesquisa aponta riscos do uso de canetas emagrecedoras por pessoas sem indicação clínica. Portanto, é essencial procurar acompanhamento especializado de um profissional da saúde.

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