
Preferência do consumidor muda conforme região, perfil de renda e busca por marcas; empresas seguem sustentando a venda dos kits básicos
A cena se repete nos corredores dos supermercados, mas já não é regra: diante das prateleiras cheias, parte dos consumidores passa direto pelos kits de cesta básica e segue para a compra item por item. A mudança no comportamento, percebida sobretudo fora dos períodos festivos, tem redefinido o espaço das cestas prontas no varejo alimentar de Campo Grande, onde o formato ainda resiste, mas com público cada vez mais específico.
No Mercado Pires, o gerente Pedro Mendes explica que a procura pelos kits não segue um padrão linear ao longo do ano. Segundo ele, a venda da cesta básica pronta é considerada atípica fora de datas sazonais.
“Não é um produto que tem saída forte o ano inteiro. Os períodos de maior procura são Páscoa, Natal e Ano Novo. Fora isso, a venda acontece principalmente por meio de empresas, que compram mensalmente para premiar funcionários”, afirma.
De acordo com o gerente, o comportamento do consumidor varia conforme a localização da loja. Enquanto em regiões mais residenciais a compra para consumo próprio aparece com mais frequência, em áreas comerciais o movimento é concentrado nas vendas corporativas.
“Nesta unidade, a venda é mais abrangente para empresas. Já em outra loja nossa, na região do Aero Rancho, o perfil muda completamente: são senhoras, famílias, pessoas que compram pensando diretamente na economia doméstica”, relata.
Economia existe, mas tem limite
A principal vantagem dos kits prontos segue sendo o preço. Mendes explica que a cesta básica reúne apenas itens essenciais, com marcas de menor valor agregado, o que permite oferecer um custo final inferior à compra avulsa.
“São produtos básicos. O arroz não é premium, o café não é de marcas mais caras, o creme dental é o mais simples. Justamente por isso o kit sai mais barato do que comprar tudo separado”, explica.
Levantamentos do setor indicam que a economia pode variar entre 29% e 50% em relação à aquisição dos mesmos itens individualmente, resultado do poder de compra em grande volume dos distribuidores. Ainda assim, o fator preço já não é suficiente para convencer todos os consumidores.
Liberdade de escolha pesa mais
A aposentada Maria Inácia, 86, é exemplo dessa mudança. Mesmo vivendo com renda fixa, ela prefere abrir mão do desconto do kit para manter controle total sobre marcas e quantidades. “Eu gosto de comprar minhas coisas separadamente. Nada do que tem naquele sacolão é do meu gosto”, afirma.
Ela conta que concentra as compras do mês no atacado e adquire apenas itens pontuais em outros mercados. “Faço minha compra do mês com R$ 400, dá para o mês inteiro. Eu compro muita coisa de limpeza, porque minha casa é grande. Arroz mesmo, cinco quilos duram mais de um mês. Moro só eu e meu neto”, diz.
Para ela, o modelo fechado da cesta não compensa. “É questão de marca. Eu gosto de usar o produto que eu gosto, e ali não tem. Por isso prefiro escolher tudo”, resume.
Kits seguem firmes para públicos específicos
Mesmo com a preferência crescente pela compra avulsa, o mercado de cestas básicas mantém espaço consolidado, especialmente entre consumidores que priorizam praticidade e compra em grande volume.
No Box do Gordinho, especializado no segmento, os kits variam conforme quantidade e finalidade, com valores que vão de pouco mais de R$ 150 até modelos que ultrapassam R$ 700, incluindo alimentos, itens de limpeza e até brindes.
Os pacotes mais simples reúnem arroz, feijão, macarrão, óleo, café, sal, fubá, extrato e papel higiênico. Já as versões maiores podem incluir até 30 quilos de arroz, produtos de higiene, ovos, frango ou bebidas, além de entrega gratuita e parcelamento. O cliente ainda pode escolher entre alguns brindes, como dúzia de ovos, leite ou refrigerante.
Por Djeneffer Cordoba
