Embora os medicamentos representem um avanço no tratamento da obesidade, o uso indiscriminado pode gerar riscos à saúde

Com a popularização das famosas ‘canetinhas emagrecedoras’, tem crescido também o número de pessoas que recorrem à medida para perder peso. Apesar de a saúde ser, muitas vezes, associada à magreza, a percepção do que é saudável também aparece além da aparência física — e, entre as campo-grandenses, os emagrecedores surgem como um ‘empurrãozinho’ não só para mudar o corpo, mas melhorar a qualidade de vida.
‘Muitas’ e ‘bastante’ tornaram-se palavras para ‘contabilizar o número de pessoas conhecidas que fazem o uso do produto. Entre as motivações, contudo, a saúde aparece no topo da lista das mulheres entrevistadas pelo Jornal Midiamax.
A cabeleireira Jussara de Santos, por exemplo, explica que recorreu ao medicamento não por padrão de beleza, mas pelo seu bem-estar. Aos 54 anos, a mulher relata que seu peso aumentou nos últimos anos e prejudicou sua condição de saúde. Após diversas tentativas, a canetinha foi sua ‘virada de chave’.
“Oito anos que eu tô aqui em Campo Grande, que eu vim pra cá, e eu tive uma mudança de peso muito grande. Aí, passados esses oito anos, eu comecei a ter muito problema por causa da gordura, do peso. Eu fazia regime, fazia um monte de coisa, academia, e nada estava adiantando. Realmente, essa canetinha ajudou muito”, comenta.
Antes de iniciar o uso, Jussara comenta que passou por um médico especialista que recomendou o medicamento. Conforme a cabeleireira, o uso do produto, combinado à alimentação adequada e realização de atividades físicas, contribui, principalmente, para ‘estar com a saúde em dia’.
‘Difícil ir na raça’
A cantora, compositora e consultora óptica Adriely Mattos também vê nos emagrecedores uma forma de perder peso e encaixar-se naquilo que a sociedade considera ‘Bonito‘. “Acredito que a magreza é saúde, mas também esteticamente manda bastante no meio de padrão de beleza”, afirma.
Adriely reconhece que ‘é difícil ir na raça’ e, apesar de conhecer bastante gente que faz o uso das canetinhas, o futuro ainda preocupa. “Dá resultado, dá resultado rápido. Eu só não sei se isso, futuramente, vai ser bom. É uma coisa nova, não sei se futuramente vai dar algum problema de saúde etc. É uma coisa nova, a gente tá vendo ainda. Mas, pra quem tá bem acima do peso, é uma forma bem mais fácil.”
Insatisfação crônica
Apesar de a saúde ser muito mencionada entre as motivações, a médica endocrinologista Flávia Tortul destaca que atualmente existe uma insatisfação maior com o físico que impulsiona a busca por emagrecedores. Conforme a especialista, isso ocorre devido a uma combinação de fatores: maior exposição e comparação social; valorização de resultados rápidos; baixa tolerância a processos graduais; e associação equivocada entre magreza e sucesso/autocontrole.
“Do ponto de vista comportamental, isso aumenta a discrepância entre expectativa e realidade e gera uma insatisfação crônica”, explica. Assim, a forma como as pessoas percebem o próprio corpo é outro ponto de alerta: Flávia comenta que existe uma dissociação entre a percepção individual e os parâmetros clínicos de saúde.
“Pacientes metabolicamente saudáveis, com IMC normal, muitas vezes se percebem insuficientemente magros, e isso tem relação com exposição contínua a padrões irreais, muitas vezes mediados por redes sociais, filtros e resultados extremos.”
Embora os medicamentos representem um avanço importante no tratamento da obesidade, o uso indiscriminado é preocupante e pode gerar riscos à saúde. A perda de massa muscular, sintomas gastrointestinais e até quadros de desnutrição estão entre os sintomas. “O objetivo não deve ser apenas emagrecer, mas melhorar desfechos de saúde, com critério, individualização e acompanhamento médico.”
