
Frio reduziu a produção de hortaliças sensíveis e fez o pepino subir até 75%, enquanto a alface caiu 12,6%
Hortaliças mais sensíveis às temperaturas baixas perderam ritmo de crescimento, reduziram oferta e puxaram reajustes que chegaram perto de dobrar. Ao mesmo tempo, o comportamento do consumidor mudou. Saladas perderam espaço nas mesas, pratos quentes ganharam força e produtores passaram a reorganizar a produção para evitar prejuízos maiores.

Em um dos boxes da Ceasa/MS, o produtor Oziel Gomes observa o movimento enquanto negocia mercadorias com clientes antigos. Há 30 anos no entreposto, ele conhece o impacto do frio quase no ritmo em que a temperatura muda. Segundo ele, culturas como pepino, pimentão, jiló e berinjela precisam de calor constante para manter o desenvolvimento normal. Quando o frio chega de forma brusca, a planta praticamente interrompe o crescimento.
“Ela dá aquele choque térmico. Essas plantas vêm produzindo no clima quente. Quando chega o frio, elas não estão climatizadas ainda. Aí não cresce. Tudo isso precisa de temperatura acima de 20 graus. Abaixo disso, trava”, afirma.
Uma lavoura de pimenta que rendia cerca de 50 caixas caiu para 10 em poucos dias. O pepino seguiu o mesmo caminho. A caixa de 20 quilos, segundo Oziel, saiu de R$ 100 para R$ 175 em uma semana. Em alguns momentos, a mercadoria nem permanece muito tempo no box. “Quando está em falta, nem esquenta no lugar”, diz.
Os dados da Ceasa/MS confirmam a pressão sobre o abastecimento. O pepino comum registrou alta de 22,25% na semana passada, com a caixa de 23 quilos passando de R$ 70 para R$ 90. O levantamento aponta excesso de chuva no Espírito Santo, um dos principais polos produtores do país, com perda de sementes, áreas alagadas e necessidade de replantio. O cenário reduziu a oferta nacional e elevou custos de frete.
O pimentão verde também entrou na sequência de reajustes. A caixa subiu de R$ 100 para R$ 110 na semana passada. Além das dificuldades climáticas no Espírito Santo, a Ceasa aponta redução da oferta em Mato Grosso do Sul e dependência maior de produtos vindos de São Paulo.
Mesmo com preços maiores, Oziel afirma que o produtor raramente consegue transformar a alta em lucro integral. Parte do reajuste precisa ficar no próprio box para preservar compradores fixos. Segundo ele, muitos clientes acompanham diariamente as oscilações do mercado e pressionam por descontos quando encontram produtos mais baratos em outros corredores da Ceasa.
“A gente não consegue repassar total. Tem cliente que compra todo dia comigo. Se aumentar demais, ele procura outro. Às vezes você assume uma parte do prejuízo para não perder esse cliente que já acompanha você há tempo”, afirma.
A disputa por preço acontece sem tabela fixa. Em um mesmo dia, o mesmo produto pode aparecer com diferença de dezenas de reais entre os boxes. Quem possui mercadoria disponível em períodos de escassez aproveita a valorização. Quem depende de fornecedores externos enfrenta dificuldade para manter margem.
A comerciante Analice Rocha acompanha esse movimento desde a antiga estrutura do Mercadão, antes da transferência da central de abastecimento para o atual endereço. Hoje, aposentada, continua na rotina das madrugadas ao lado do marido e do filho. Segundo ela, o quiabo foi um dos produtos mais afetados pelo frio nas últimas semanas.
A caixa, que antes custava em torno de R$ 120, chegou perto de R$ 230. Em alguns dias, saiu até por R$ 250 dependendo da qualidade e do volume disponível. “O crescimento do produto muda muito. O quiabo não cresce direito no frio. Quando falta, sobe para todo mundo. Quem vai comprar também já paga mais caro e precisa repassar”, resume.
Ela afirma que parte dos consumidores desiste da compra diante da alta, mas produtos com consumo mais fiel mantêm saída mesmo em períodos de reajuste. “Quem quer quiabo, quer quiabo. Não troca por outra coisa. Tem gente que olha o preço e vai embora, mas tem quem pegue de qualquer jeito porque não fica sem levar”, diz.
Ao mesmo tempo em que algumas culturas perdem força no frio, outras encontram ambiente mais favorável. Folhas como alface, couve e cheiro-verde costumam crescer melhor em temperaturas mais amenas. O problema, nesse caso, aparece do lado do consumo.
“Para folha fica bom produzir. O problema é vender. Quando pega semana fria mesmo, restaurante vende menos salada. O pessoal procura mais coisa quente”, afirma Oziel.
A consequência aparece nos preços. A alface crespa registrou queda de 12,61% na semana passada, com a caixa passando de R$ 45 para R$ 40. Segundo a Ceasa, as temperaturas mais amenas aumentaram a produtividade das lavouras justamente em um período de demanda mais fraca depois do feriado do Dia do Trabalho.
Enquanto as folhas perdem espaço, produtos usados em sopas e pratos quentes ganham procura. Analice afirma que a abóbora costuma ganhar força nos dias mais frios. Batata, mandioca e legumes usados em caldos seguem o mesmo caminho. “O pessoal procura para sopa. Já salada diminui bastante”, afirma.
Consumo da estação
A mudança no comportamento do consumidor também aparece no setor de frutas. Fiscal do Mercado Produtor, Antônia Cabral afirma que frutas típicas da estação mantêm público fiel mesmo em períodos de oscilação nos preços. Caqui, ponkan e outras cítricas passam a ocupar mais espaço nas compras nesta época do ano.
O clima mais ameno ajuda inclusive na conservação das mercadorias dentro da Ceasa. Frutas e folhagens conseguem permanecer mais tempo nas câmaras frias e nas bancas sem deterioração acelerada. Ainda assim, o consumo muda de forma perceptível dependendo da intensidade das temperaturas.
A tangerina ponkan, por exemplo, teve queda de 9,09% na semana passada, pressionada pelo aumento da safra paulista e pela maior entrada de mercadoria no mercado nacional.
No campo, a principal alternativa para reduzir impactos climáticos continua distante da maioria dos pequenos produtores. O cultivo em estufa protege contra frio, vento e excesso de chuva, mas exige investimento alto e mudança completa no modelo de produção.
Segundo Oziel, a lógica da estufa se aproxima mais de um sistema industrial do que do cultivo tradicional em solo aberto. “Quando você passa para a estufa, muda o segmento. A nutrição da planta é toda controlada. Você segura temperatura, vento, tudo. Mas é investimento alto. Pequeno produtor não consegue fazer isso rápido”, afirma.
Sem essa estrutura, produtores dependem de adaptação constante. Diversificar culturas virou estratégia para atravessar períodos de perda sem interromper o abastecimento. Na propriedade de Oziel, pepino divide espaço com couve, jiló, salsa, cebolinha, pimenta e berinjela. Parte das frutas comercializadas também vem de parceiros da região.
“É por isso que a gente planta um pouco de variedade. Se depender de uma cultura só, não aguenta. Sempre uma ajuda a equilibrar a outra”, conclui.
