
Preço da unidade saltou de R$ 2 para até R$ 5,59 e encarece o acesso de pacientes diabéticos ao insumo
A alta no consumo de medicamentos voltados ao emagrecimento desencadeou um efeito em cadeia no mercado farmacêutico de Campo Grande e passou a atingir diretamente pacientes que dependem de tratamento contínuo contra o diabetes.
Apuração realizada pela reportagem do Jornal O Estado em diferentes redes de drogarias da Capital identificou um cenário de desabastecimento e aumento expressivo no preço das seringas de insulina.
O insumo, historicamente vendido por cerca de R$ 2 a unidade, registrou alta de até 179,5% e passou a custar até R$ 5,59 em farmácias da cidade.
O movimento acompanha o aumento da procura por agulhas de insulina, principalmente do modelo 26 mm x 6 mm, em meio à expansão do uso de medicamentos injetáveis para emagrecimento, como a tirzepatida e versões manipuladas.
Como parte desses produtos é comercializada em doses fracionadas ou fora das canetas aplicadoras originais, consumidores passaram a recorrer às seringas comuns de 1 mililitro para realizar a aplicação subcutânea.
Em uma das unidades visitadas, um atendente afirmou que o estoque já estava próximo do fim poucos dias após a chegada de novos lotes.
Em outro estabelecimento, onde o produto estava em falta na gôndola, um funcionário também relacionou o desabastecimento à procura por medicamentos para emagrecimento.
O maior preço encontrado pela reportagem foi de R$ 5,59 pela unidade avulsa da seringa de 1 ml. Já as embalagens fechadas variavam entre R$ 22,99, em marcas próprias, e R$ 48,99, dependendo do fabricante.
Em fevereiro, a falta do produto levou consumidores a recorrerem ao comércio eletrônico e a canais digitais para tentar encontrar as seringas.
Na época, relatos também apontavam que o mercado clandestino de substâncias proibidas no país contribuía para aumentar a demanda pelas agulhas. Três meses depois, além da dificuldade de acesso, o aumento dos preços passou a pesar no orçamento.
Alerta na saúde
Ao O Estado, a presidente do CRF-MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul), Daniely Proença, afirmou que o cenário preocupa pela possibilidade de comprometer tratamentos contínuos.
“Estamos falando de algo que impacta diretamente pacientes que dependem de tratamento contínuo. Quando existe qualquer dificuldade relacionada ao uso de medicamentos ou de insumos essenciais, a principal preocupação deve ser a continuidade segura desse cuidado”, afirmou.
Segundo ela, o conselho acompanha a pressão sobre a demanda nas farmácias e drogarias da Capital, mas não possui atribuição legal para interferir em preços ou estoques.
“Nossa atuação está voltada à fiscalização do exercício profissional e à defesa da assistência farmacêutica de qualidade”, explicou. A combinação entre escassez e aumento de preços, segundo a entidade, aumenta a vulnerabilidade dos pacientes crônicos.
Além da dificuldade para encontrar o produto, consumidores enfrentam impacto direto no orçamento doméstico. “O paciente passa a enfrentar uma dupla dificuldade. Além da limitação no acesso ao produto, existe também o impacto financeiro”, disse Daniely Proença.
A presidente do CRF-MS também alertou para os riscos provocados por improvisações no tratamento. “A maior preocupação é quando isso leva o paciente a improvisar materiais, reutilizar itens ou interromper condutas relacionadas ao tratamento, aumentando os riscos à saúde.”
Sobre a possibilidade de medidas para preservar estoques destinados a pacientes diabéticos, a representante informou que esse tipo de definição envolve decisões comerciais e regulatórias que extrapolam a competência da entidade.
