Produzidos em casa, itens de limpeza ajudam na renda de famílias e mantém clientela fiel

A decisão da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de determinar o recolhimento de detergentes, sabões líquidos para roupas e desinfetantes da marca Ypê reacendeu discussões sobre qualidade, custo e alternativas aos produtos de limpeza industrializados. A medida atingiu lotes fabricados na unidade de Amparo (SP), após a identificação de falhas no processo de fabricação e risco de contaminação microbiológica.

Em meio à repercussão do caso e ao aumento no preço de produtos de limpeza nos supermercados, consumidores seguem recorrendo a versões artesanais produzidas dentro de casa em Campo Grande, especialmente em bairros periféricos e regiões mais afastadas da Capital.

Roberta Martins

No Bairro Tiradentes, o vendedor autônomo Nelson Firmino Blass, de 56 anos, comercializa sabão de álcool produzido artesanalmente há cerca de cinco meses. Os galões ficam expostos na calçada, próximos à rotatória da Rua Marquês de Pombal com a Avenida José Nogueira Vieira, onde ele tenta atrair motoristas que passam diariamente pela região.

Segundo Nelson, a produção começou depois que ele aprendeu o processo com outro fabricante informal da Capital. Inicialmente, ajudava na fabricação e nas vendas até decidir produzir por conta própria. “Eu fui aprendendo junto. A gente fazia e vendia. Hoje é o que eu tenho para sobreviver mesmo. Tem semana que vende bem, mas tem semana que cai bastante. O álcool está caro, a soda está cara, tem combustível também, mas a gente vai continuando”, relata.

A mistura leva água, soda, óleo e álcool. Apesar da receita parecer simples, Nelson afirma que o processo exige atenção para que o sabão não perca consistência. “Você mexe bastante até dar aquela liga. Se errar o ponto, não fica bom. O segredo do sabão é esse”, explica.

Cada produção rende cerca de 12 galões de cinco litros, e segundo o vendedor, muitos consumidores acabam retornando depois da primeira compra. “O pessoal compra para testar. Quando gosta, volta de novo. Tem cliente que passa aqui sempre porque fala que limpa bem”, afirma. O produto é vendido principalmente para limpeza pesada, como lavagem de roupas, tapetes, calçadas e canis

Vendas online 

Além das vendas diretas nas ruas, a produção caseira também se tornou complemento de renda para famílias que comercializam os produtos pela internet. É o caso da dona de casa Giovana Souza, de 26 anos, que fabrica sabão líquido e sabão em barra na própria residência.

A ideia surgiu durante viagens frequentes para Bonito, quando observou a dificuldade da tia para remover sujeiras mais pesadas das roupas utilizando apenas produtos industrializados. A partir disso, começou a pesquisar receitas e formas de produção pela internet. Sem experiência, passou por diversas tentativas até acertar a fórmula utilizada atualmente. “No primeiro dia deu tudo errado. O sabão não endureceu, não deu ponto. Achei que não ia funcionar, mas depois fomos tentando até aprender”, lembra.

Arquivo Pessoal

Hoje, Giovana vende o sabão líquido em galões e também produz barras artesanais para clientes de Campo Grande e da região de Bonito. O sabão líquido costuma ter maior saída em fazendas e propriedades rurais, enquanto o sabão em barra é mais procurado por moradores da Capital por causa da durabilidade.

Segundo ela, o galão é vendido por R$20 e costuma render mais do que produtos industrializados utilizados pelos clientes no dia a dia. A fabricação acontece principalmente durante a noite, quando as filhas já estão dormindo. Como utiliza soda cáustica na preparação, Giovana afirma que precisou adotar uma série de cuidados dentro de casa.

Máscaras, luvas e recipientes separados passaram a fazer parte da rotina após as primeiras experiências, principalmente por causa do vapor liberado durante o preparo.
As vendas são realizadas exclusivamente pela internet. No início, o casal chegou a oferecer entrega gratuita em Campo Grande para conquistar os primeiros clientes. Atualmente, as entregas são feitas pelo marido após o expediente de trabalho, com cobrança de taxa fixa de R$10.

Mesmo funcionando como renda complementar, o dinheiro obtido com os produtos ajudou nas despesas da casa e na compra de itens para as filhas. “Com as vendas consegui comprar roupas para minhas meninas e ajudar bastante dentro de casa. Foi uma coisa que me deixou muito orgulhosa”, afirma.

A produção chegou a ser interrompida temporariamente devido à dificuldade para encontrar matéria-prima, principalmente sebo bovino. Segundo Giovana, ela prefere utilizar óleo limpo e gordura tratada para evitar cheiro forte nas roupas e manter a qualidade do produto.

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