
Puxada pela energia elétrica e pelos alimentos, inflação em Campo Grande foi a mais alta do país
Tomate mais caro, carne pesando no carrinho de compras e uma conta de luz que não para de subir. Em maio, Campo Grande registrou a maior inflação do Brasil entre as cidades pesquisadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), e os efeitos já são sentidos no dia a dia de quem tenta fechar as contas no fim do mês.
“Eu estou sendo escrava de mim mesma. Trabalho, trabalho, trabalho e ainda não consigo pagar as contas”, desabafa a consultora de óculos Cristiane de Souza, 45. Morando sozinha, ela viu a conta de energia saltar de cerca de R$ 120 para quase R$ 200 mensais. Para tentar reduzir os gastos, diminuiu o tempo de banho e evita deixar luzes acesas, mas diz que os esforços não têm sido suficientes para acompanhar os reajustes.
Os números divulgados pelo IBGE mostram que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial do país, avançou 1,31% em Campo Grande durante maio, mais que o dobro da média nacional, de 0,58%. O resultado colocou a Capital, ao lado de Aracaju, no topo do ranking da inflação entre as localidades pesquisadas.
O índice registrado em Campo Grande foi mais de duas vezes superior à média brasileira. Entre os fatores que mais pesaram no resultado está o reajuste da tarifa de energia elétrica, que teve efeito maior na composição da inflação local do que no restante do país.
O principal fator para o resultado foi a energia elétrica residencial, que teve aumento de 13,56% em Campo Grande após reajuste tarifário autorizado em abril. O tomate também exerceu forte pressão sobre o índice local, acumulando alta de 22,61% no mês.
Segundo o IBGE, a energia elétrica foi o item que mais contribuiu individualmente para a inflação de maio. Em âmbito nacional, a alta média da conta de luz foi de 3,67%, mas em Campo Grande o reajuste foi quase quatro vezes superior, aumentando o custo de despesas consideradas essenciais.
“O aluguel é caro, a energia está cara e o salário não acompanha. Você tem que trabalhar muito mais para sobreviver e pagar suas contas”, afirma Cristiane. Segundo ela, o aumento das despesas obrigou mudanças na vida financeira. “Eu tinha cartão de crédito, hoje não tenho mais por causa de tanta conta.”
“Trabalho, trabalho, trabalho e ainda não consigo pagar as contas”, diz moradora que viu conta de luz subir quase 60%
Grandes impactos
A alta da energia também surpreendeu a técnica de enfermagem Vanderlina Medeiros, 54. Ela conta que a conta de luz passou de R$ 280 para R$ 470 em poucos meses.
“Eu achei que estava gastando muito, mas percebi que podia ser a energia. Foi um aumento bem grande”, relata. Mesmo sem deixar de consumir outros produtos, ela afirma que o reajuste reduziu a sobra do orçamento familiar. “Não deixei de comprar outras coisas, mas sobrou menos.”


Conta de energia sobe até 13,5% e campograndenses sentem os impactos – Fotos: Nilson Figueiredo
Embora o aumento da energia tenha sido o principal responsável pelo avanço da inflação em Campo Grande, os alimentos continuam pressionando o bolso dos consumidores. Em todo o país, o grupo Alimentação e Bebidas registrou alta de 1,33% em maio e respondeu por metade da inflação do período.
Para Vanderlina, os aumentos estão interligados. “É um pacote. Tem combustível, alimentação, energia. Um puxa o outro. Sobe um, sobe tudo.”
Custo de vida
Além do IPCA, Campo Grande também liderou o ranking nacional do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), que mede a inflação para famílias com renda de até cinco salários mínimos. O indicador avançou 1,49% em maio, principalmente por causa da energia elétrica e do aumento das carnes.
O resultado é considerado especialmente preocupante porque o INPC retrata a realidade das famílias de menor renda. Nesse grupo, despesas como alimentação, energia elétrica e habitação consomem uma parcela maior do orçamento mensal, tornando os reajustes mais difíceis de absorver.
As preocupações também se estendem para os próximos meses. Economistas acompanham os possíveis impactos do fenômeno climático El Niño sobre a produção agropecuária no segundo semestre. A expectativa é de que alterações no regime de chuvas possam afetar a oferta de alimentos e gerar novas pressões sobre os preços até o fim do ano.
Enquanto os indicadores econômicos mostram o avanço dos preços, consumidores sentem os efeitos na rotina. Para Cristiane, a conta não fecha. “Eu saio de casa cedo, volto à noite, quase não fico em casa. Mesmo assim, a conta vem cada vez mais alta. A gente trabalha o mês inteiro e parece que nunca consegue alcançar as despesas.”
Por Djeneffer Cordoba
