Imunização durante o pré-natal reduz riscos de doenças graves, transfere anticorpos ao bebê e é considerada uma das estratégias mais eficazes para prevenir internações e mortes infantis

A vacinação durante a gestação é uma das principais aliadas para garantir uma gravidez mais segura e um início de vida mais protegido para o bebê. Além de reduzir o risco de doenças potencialmente graves para a mãe, as vacinas permitem a transferência de anticorpos pela placenta, oferecendo proteção ao recém-nascido justamente no período em que seu sistema imunológico ainda é imaturo e o calendário vacinal infantil está apenas começando.

Apesar dos benefícios comprovados pela ciência, a adesão ainda representa um desafio. Dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande) mostram que, em 2025, a cobertura vacinal entre gestantes em Campo Grande alcançou 84,27% para a vacina dTpa, 20,88% para a vacina contra o VSR (Vírus Sincicial Respiratório) e 29,33% para a vacina contra a Covid-19. Embora os índices tenham apresentado leve crescimento desde 2023, a Secretaria reforça que ainda é necessário ampliar a cobertura, principalmente entre as gestantes mais vulneráveis.

Foto: imagem gerada por IA

Segundo a Sesau, a vacinação faz parte do acompanhamento pré-natal realizado nas unidades básicas de saúde. Durante as consultas, as equipes da Atenção Primária verificam a situação vacinal da gestante, aplicam as doses indicadas e acompanham casos de esquemas incompletos, realizando, inclusive, busca ativa para atualização da caderneta.

Para aumentar a cobertura, o município ampliou os horários de atendimento nas unidades de saúde, promoveu vacinação itinerante, ações em finais de semana e feriados e intensificou a busca por gestantes que ainda não completaram o esquema vacinal. A Secretaria também garante que todas as vacinas recomendadas para esse público estão disponíveis na rede municipal, sem registro de desabastecimento.

Proteção que começa antes do nascimento

Em Mato Grosso do Sul, a SES (Secretaria de Estado de Saúde) acompanha continuamente os indicadores de vacinação das gestantes em parceria com os municípios, utilizando informações da Rede Nacional de Dados em Saúde e do PNI (Programa Nacional de Imunizações). O monitoramento permite identificar regiões com menor cobertura e direcionar estratégias específicas para ampliar a imunização.

Foto: divulgação/SES MS

A pasta destaca que a vacinação materna é responsável pela chamada proteção passiva, quando os anticorpos produzidos pela mãe atravessam a placenta e passam a proteger o bebê nos primeiros meses de vida.

Essa proteção é considerada essencial até que a criança possa iniciar e completar seu próprio calendário vacinal, reduzindo significativamente o risco de doenças graves, como coqueluche, influenza e outras infecções preveníveis por vacinação. A estratégia também contribui para diminuir hospitalizações e óbitos infantis.

Quais vacinas são recomendadas?

O Calendário Nacional de Vacinação recomenda que as gestantes recebam, conforme indicação clínica e período gestacional, as vacinas dTpa, Influenza, Covid-19, Hepatite B e, mais recentemente, a vacina contra o VSR (Vírus Sincicial Respiratório). Cada uma delas desempenha um papel específico na proteção da mãe e do bebê.

A vacina dTpa protege contra difteria, tétano e coqueluche, além de transferir anticorpos ao recém-nascido. A vacina contra a gripe reduz o risco de complicações durante a gravidez, enquanto a imunização contra a Covid-19 diminui significativamente as chances de evolução para formas graves da doença.

Foto: divulgação/SES MS

Já a vacina contra a hepatite B evita a transmissão da doença da mãe para o bebê quando a gestante ainda não foi imunizada anteriormente. A mais recente incorporada ao calendário é a vacina contra o VSR, recomendada entre a 28ª e a 36ª semana de gestação, que protege o recém-nascido contra formas graves de bronquiolite e outras complicações respiratórias nos primeiros meses de vida.

Combate à desinformação

Para a Secretaria de Estado de Saúde, um dos principais obstáculos para ampliar a cobertura vacinal continua sendo a hesitação provocada pela circulação de informações falsas, especialmente nas redes sociais.

Entre os desafios também estão o início tardio do pré-natal, oportunidades perdidas durante as consultas e falhas nos registros dos sistemas de informação. Para enfrentar esse cenário, o Estado investe na qualificação permanente dos profissionais de saúde, no fortalecimento da busca ativa, em campanhas de conscientização e na orientação baseada em evidências científicas.

As ações também incluem campanhas de comunicação, apoio técnico aos municípios, monitoramento constante dos indicadores e integração entre unidades básicas, maternidades e serviços especializados, com o objetivo de garantir que todas as gestantes tenham acesso às vacinas recomendadas no momento adequado.

Renato Kfouri – Foto: reprodução/SBIm

O vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), Renato Kfouri, ressalta que a vacinação no pré-natal é uma prática segura e responsável por importantes conquistas da saúde pública.

“A vacinação durante o período pré-natal é segura e colaborou para conquistas como a eliminação do tétano materno e neonatal no país. Ainda assim, muitas mulheres deixam de se vacinar por desconhecimento ou pela influência de conteúdos enganosos. Precisamos ampliar o acesso das famílias à informação qualificada, porque esse é um fator decisivo para aumentar a adesão às vacinas”, afirma.

Vacinação na gravidez protege duas vidas

O infectologista, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Júlio Croda, reforça que a vacinação durante a gestação representa uma das formas mais eficientes de proteger o bebê antes mesmo do nascimento. Segundo ele, as vacinas recomendadas para esse período reduzem o risco de complicações na gravidez e garantem que o recém-nascido receba anticorpos fundamentais nos primeiros meses de vida.

Foto: divulgação/arquivo

“A gestante recebe uma série de vacinas específicas durante o pré-natal. A dTpa é muito importante porque protege o recém-nascido contra o tétano. Nesta época do ano, também são recomendadas as vacinas contra a influenza e a Covid-19, que ajudam a prevenir complicações, inclusive o parto prematuro”, explica.

Croda chama a atenção para uma das imunizações mais recentes incorporadas ao calendário do SUS (Sistema Único de Saúde): a vacina contra o VSR (Vírus Sincicial Respiratório), principal causador da bronquiolite em bebês.

“Existe uma vacina nova muito importante contra o vírus sincicial respiratório, responsável por grande parte dos casos de bronquiolite nas crianças, especialmente durante o inverno. Ela começou a ser disponibilizada pelo Ministério da Saúde no ano passado, e este é o segundo ano em que está disponível para as gestantes. Ainda há muitas mulheres que desconhecem essa vacina, mas ela é fundamental porque protege o bebê justamente no período em que ele é mais vulnerável”, destaca.

Segundo o infectologista, ao ser imunizada durante a gravidez, a mãe transfere anticorpos ao bebê pela placenta, reduzindo significativamente o risco de formas graves da doença nos primeiros meses de vida, quando o sistema imunológico da criança ainda está em formação.

BCG: a primeira vacina da vida

No Dia da Vacina BCG, celebrado em 1º de julho, Júlio Croda também lembra a importância da primeira vacina recebida pelo bebê, normalmente ainda na maternidade. Com mais de um século de história, a BCG continua sendo essencial na prevenção das formas mais graves da tuberculose na infância.

1º de Julho é o dia da Vacina BCG, a primeira vacina aplicada em recém-nascidos – Foto: reprodução/Geovana Albuquerque/Agência Saúde

“A BCG é uma vacina muito importante. Ela existe há mais de 100 anos e foi uma das primeiras vacinas desenvolvidas no mundo. O ideal é que seja aplicada logo após o nascimento, ainda na maternidade, porque protege principalmente contra as formas graves da tuberculose durante os cinco primeiros anos de vida”, afirma.

Embora seja extremamente eficaz para crianças pequenas, Croda explica que a proteção oferecida pela BCG é limitada às formas graves da doença na infância. Por isso, pesquisadores trabalham no desenvolvimento de novas tecnologias capazes de ampliar essa proteção para outras faixas etárias.

“A BCG protege principalmente os recém-nascidos e as crianças pequenas. Para os adultos, especialmente contra a tuberculose pulmonar, ainda precisamos de uma vacina mais eficaz. É justamente nesse objetivo que estamos trabalhando”, afirma.

Pesquisa desenvolvida em Mato Grosso do Sul

À frente de pesquisas na Fiocruz, Júlio Croda coordena estudos voltados ao desenvolvimento de uma nova vacina contra a tuberculose baseada em tecnologia de RNA.

Segundo ele, o projeto já passou pelas fases laboratoriais e pelos estudos em modelos animais e deverá iniciar os primeiros estudos clínicos nos próximos anos.

Laboratório da nova unidade da Fiocruz, inaugurada em junho de 2026, em Campo Grande – Foto: Roberta Martins

“Estamos desenvolvendo, em parceria com Bio-Manguinhos/Fiocruz, uma nova vacina de RNA para tuberculose. Os estudos em laboratório e em modelos animais têm avançado, e a expectativa é iniciar as pesquisas em pessoas em breve. O objetivo é desenvolver uma vacina capaz de proteger principalmente contra as formas pulmonares da doença em adultos”, explica.

Para o pesquisador, o fortalecimento da estrutura da Fiocruz em Mato Grosso do Sul representa um avanço importante para a ciência e para a saúde pública.

Durante a inauguração da nova sede de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da instituição, em Campo Grande, Croda destacou que o novo complexo amplia a capacidade de resposta do Estado diante de epidemias e outras emergências sanitárias.

“Estamos consolidando uma instituição voltada à pesquisa aplicada, capaz de gerar impactos diretos na saúde da população. A experiência da pandemia mostrou como a Fiocruz é estratégica para responder rapidamente a novas emergências de saúde pública. Agora, Mato Grosso do Sul passa a contar com uma estrutura de pesquisa muito mais robusta, o que fortalece o diagnóstico, a vigilância e o desenvolvimento de soluções para doenças que afetam nossa população”, ressalta.

Experiência de quem vive a quinta gestação

Grávida da quinta filha, a fonoaudióloga Marcella Oliveira da Rosa Lopes, de 30 anos, conhece bem a rotina do pré-natal pelo SUS. Ao longo das gestações, ela afirma nunca ter enfrentado dificuldades para receber as vacinas recomendadas e acredita que a imunização é um cuidado essencial para proteger tanto a mãe quanto o bebê.

Mãe de Verônica, de 7 anos; Isabel, de 6; Cecília, de 3; Gabriela, de 2; e de Joana, que nascerá em setembro deste ano, Marcella conta que, apesar de algumas doses provocarem reações leves, como dor no braço e febre passageira, nunca apresentou efeitos colaterais importantes.

Marcella com as filhas Verônica, Isabel, Cecília, Gabriela, à espera de Joana – Foto: arquivo pessoal

“Sempre foi muito tranquilo. Algumas vacinas eu nem precisei repetir porque ainda estavam dentro do período de validade entre uma gestação e outra. As reações que tive foram apenas as esperadas, como dor no local da aplicação ou uma febre leve. Nunca tive nenhum problema mais sério”, relata.

Durante a pandemia da Covid-19, porém, a mudança de cidade acabou atrasando parte do acompanhamento pré-natal da segunda gestação.

“Na época, eu me mudei de Chapecó (SC) para Cuiabá (MT) e estava grávida de cinco meses. Como era o período da pandemia, houve atraso nas consultas e também nas vacinas, mas consegui colocar tudo em dia. No fim, tomei todas as doses recomendadas”, lembra.

A importância das novas vacinas

Ao acompanhar a evolução do calendário vacinal ao longo dos anos, Marcella diz perceber que novas tecnologias vêm ampliando a proteção dos bebês. Um dos exemplos é a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório, responsável por prevenir formas graves de bronquiolite.

A fonoaudióloga fala sobre o assunto a partir de uma experiência pessoal.

“Minha segunda filha teve bronquiolite e chegou a ficar internada. Naquela época, eu não recebi essa vacina durante a gestação. Hoje ela faz parte do calendário e protege o bebê ainda antes do nascimento. Não dá para afirmar que minha filha não teria adoecido, mas acredito que, se eu tivesse sido imunizada, provavelmente a doença teria sido muito mais leve”, afirma.

Embora admita sentir certa cautela diante de vacinas recentemente incorporadas ao calendário, ela ressalta que procura buscar informações confiáveis antes de tomar qualquer decisão.

“É natural que a gente tenha dúvidas quando surgem vacinas novas. Nem sempre conseguimos acompanhar todos os estudos. Mas, quando entendemos que elas passaram por pesquisas e foram incorporadas ao calendário porque são seguras e eficazes, percebemos que elas existem justamente para prevenir doenças que podem trazer consequências graves para a mãe e para o bebê”, diz.

Informação faz a diferença

Marcella destaca que sempre recebeu orientações das equipes de enfermagem durante o pré-natal, principalmente sobre a importância das vacinas e as possíveis reações após a aplicação. Ela acredita que o acesso à informação é decisivo para que as gestantes se sintam seguras.

“Quem mais me orientou foi a equipe de enfermagem. Eles explicavam a importância da vacinação e quais reações poderiam acontecer. Nunca fui desencorajada a tomar as vacinas da gestação. Pelo contrário, sempre fui orientada sobre a necessidade de manter o calendário em dia”, conta.

Mesmo conciliando o acompanhamento da própria gravidez com os cuidados das quatro filhas, Marcella organiza a rotina para não deixar consultas e vacinas em atraso.

Ela explica que todos os anos reserva boa parte do primeiro semestre para colocar em dia exames, retornos médicos e vacinação de toda a família.

“É uma verdadeira operação logística. São consultas, exames, retornos e vacinação para todo mundo. Mas a saúde precisa ser prioridade. A gente dá um jeito porque sabe da importância desse acompanhamento”, relata.

Respeitar as particularidades de cada gestação e realizar o pré-natal, são fatores essenciais para Marcella e sua família- Foto: arquivo pessoal

Cuidado que começa antes do nascimento

Para Marcella, que espera a quinta filha, a principal mensagem para outras mulheres é que o pré-natal e a vacinação representam um investimento na saúde do filho antes mesmo do parto.

“Cada gestação é única. Mesmo quem já teve vários filhos precisa fazer o pré-natal direitinho. Nesta gravidez, por exemplo, estou em acompanhamento de alto risco por causa da pressão arterial, algo que nunca tinha acontecido antes. O acompanhamento faz toda a diferença”, afirma.

Marcella também defende que a vacinação vai além da proteção individual.

“As vacinas que fazem parte do calendário e têm eficácia comprovada existem para proteger vidas. Quando deixamos de nos vacinar, não colocamos apenas a nossa saúde em risco, mas também a de outras pessoas, especialmente dos bebês, que ainda são muito vulneráveis. Enquanto eles estão na barriga, conseguimos protegê-los. Depois que nascem, passam a ter contato com irmãos, familiares e outras pessoas. Por isso, cuidar da vacinação durante a gestação é uma forma de oferecer a eles um começo de vida mais seguro”, conclui.

A vacinação na gravidez é reconhecida por especialistas e autoridades de saúde como uma das medidas mais eficazes para reduzir casos graves de doenças imunopreveníveis, hospitalizações e mortes maternas e infantis. Ao lado do pré-natal, ela representa um cuidado que começa ainda na gestação e acompanha mãe e filho nos primeiros momentos de vida. Em um cenário marcado pela circulação de informações falsas, ampliar o acesso a orientações baseadas em evidências científicas continua sendo um passo fundamental para aumentar a confiança da população e fortalecer a prevenção.

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