
Preço na bomba é influenciado por petróleo, câmbio, impostos e custos de produção e distribuição
R$ 50 hoje. R$ 100 na próxima semana. Mais R$ 80 alguns dias depois. Para quem precisa do carro todos os dias, abastecer pode se transformar em uma sequência de pequenos pagamentos que, isoladamente, parecem caber no bolso. O problema é que a soma deles pode desaparecer no orçamento sem que o motorista perceba quanto realmente gastou ao longo do mês.
O combustível é uma das despesas mais frequentes de quem tem um veículo. O valor pago na bomba, porém, não depende de um único fator. O preço resulta de uma cadeia que começa na produção ou importação, passa por tributos e pela mistura obrigatória de biocombustíveis e inclui os custos de distribuição e revenda. O mercado internacional de petróleo e as variações do câmbio também influenciam o valor final.
Na prática, o motorista pode controlar o momento em que abastece e escolher onde comprar, mas não controla todos os elementos que formam o preço. É por isso que uma alta no petróleo ou uma mudança no câmbio pode pressionar o custo dos combustíveis, mesmo quando o consumidor não percebe nenhuma alteração no próprio veículo.
O custo aparece aos poucos
Para entender como os hábitos de abastecimento podem afetar o bolso e o próprio veículo, a quinta reportagem da série “Para onde vai o meu dinheiro?” ouviu o mecânico Pedro Fedossi. Com 46 anos de profissão e há 14 anos na Discautol, ele esclarece dúvidas comuns dos motoristas sobre o assunto.
Para ele, sempre que possível, o motorista deve manter o tanque abastecido. Segundo o mecânico, um tanque mais cheio reduz a quantidade de gases no espaço interno e pode diminuir a evaporação do combustível.
“Quando você enche o tanque, o combustível vai evaporar com menos intensidade. À medida que você vai andando, ele vai ter uma rentabilidade melhor e você vai andar mais quilômetros com o tanque cheio”, afirma.
A orientação, porém, deve ser analisada de acordo com o modelo do carro e as especificações do fabricante. O ponto mais importante para o orçamento, independentemente da forma de abastecimento, é acompanhar quanto o veículo consome e quanto esse gasto representa na renda mensal.
Reserva não deve virar rotina
Outro hábito comum entre motoristas é esperar o tanque chegar à reserva antes de abastecer. Pedro recomenda evitar que isso se torne uma prática frequente.
“A bomba de combustível tem que trabalhar mergulhada dentro do combustível. Quando o nível está muito baixo, ela pode aquecer e acabar danificando mais rápido”, explica.
Segundo ele, o funcionamento prolongado com pouco combustível também pode favorecer a entrada de resíduos no sistema. “Quando está bem baixo, é possível que a bomba sugue as sujeiras que ficam no fundo do tanque. Isso pode chegar aos bicos e fazer com que travem”, afirma.
Por isso, o mecânico recomenda não esperar o tanque chegar constantemente à reserva. A orientação, no entanto, não significa que o motorista precise manter o tanque cheio o tempo todo. O cuidado principal é evitar transformar o nível muito baixo em rotina.
Além do risco de pane por falta de combustível, o motorista que espera o último momento também perde margem para pesquisar preços ou escolher um posto mais barato. Quando o marcador chega ao limite, a urgência passa a determinar a compra.
Abastecer de manhã não faz o combustível render mais
Uma dúvida frequente entre motoristas é se abastecer pela manhã ou à noite, quando a temperatura costuma ser mais baixa, permite levar mais combustível pelo mesmo valor.
Segundo Pedro, a diferença não representa uma economia relevante para o consumidor. “Isso, na prática, não funciona. O combustível já tem a temperatura dele. Se está frio ou quente do lado de fora, não vai mudar a quantidade que você está colocando no tanque”, afirma.
Por isso, escolher o horário do abastecimento não deve ser tratado como uma estratégia capaz de reduzir de forma perceptível a despesa com combustível.
O petróleo também chega à bomba
A formação do preço começa muito antes de o combustível chegar ao posto. O valor final é influenciado pelos preços praticados na produção e na importação, pelos tributos estaduais e federais, pelos biocombustíveis adicionados e pelos custos e margens de distribuição e revenda.
No caso dos derivados de petróleo, o cenário internacional também pesa. O Brasil participa de um mercado global em que petróleo, câmbio, custos de importação e disponibilidade de produtos interferem na formação dos preços.
O diesel, por exemplo, depende de importações para complementar o abastecimento do mercado interno. Em momentos de instabilidade internacional, a alta dos preços no exterior pode aumentar o custo de aquisição do produto e pressionar a cadeia até chegar ao consumidor.
A variação do dólar também influencia esse processo. Como parte dos combustíveis e insumos está ligada ao mercado internacional, mudanças no câmbio podem alterar o custo de importação e a paridade dos produtos.
Por isso, o preço pago na bomba não é determinado apenas pelo posto. O valor é resultado de uma cadeia que envolve produtores, refinarias, importadores, distribuidoras, governos e revendedores.
A conta que o motorista não vê
Em momentos de pressão sobre os preços, o governo pode adotar medidas para tentar reduzir o impacto sobre o consumidor. Entre as alternativas estão subsídios, mudanças tributárias e fiscalização sobre os agentes da cadeia.
Essas medidas, porém, não eliminam os fatores que pressionam o mercado. Quando o petróleo sobe no exterior, o câmbio se desvaloriza ou há restrição na oferta de combustíveis, o impacto pode chegar ao preço final.
O motorista também precisa considerar que o abastecimento é apenas uma parte do custo de manter um veículo. Para entender quanto o carro realmente pesa no orçamento, entram na conta IPVA, seguro, manutenção, pneus, estacionamento e eventuais financiamentos.
