Conferência Internacional de Aids, no Rio de Janeiro, alerta para redução de recursos, acesso desigual a novos medicamentos e ameaça de retrocesso no combate ao HIV em todo o mundo 

A redução histórica dos recursos destinados ao combate ao HIV pode comprometer os avanços conquistados nas últimas décadas e favorecer o avanço da epidemia em diferentes países. O alerta foi feito pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) durante a abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada nesta segunda-feira (28), no Rio de Janeiro.

Segundo o relatório apresentado pela agência da ONU, o financiamento internacional para programas de enfrentamento ao HIV caiu 18% entre 2024 e 2025, o equivalente a uma redução superior a US$ 1,5 bilhão. Trata-se do menor nível de investimentos registrado em quase duas décadas.

Embora a ciência tenha alcançado avanços importantes na prevenção da doença, especialistas alertam que a falta de recursos e o acesso desigual às novas tecnologias podem comprometer o controle da epidemia.

Medicamento amplia prevenção, mas acesso ainda é limitado

Entre os destaques da conferência está o lenacapavir, medicamento injetável de longa duração que, de acordo com estudos recentes, oferece proteção próxima de 100% contra a infecção pelo HIV com apenas duas aplicações por ano.

Apesar dos resultados considerados revolucionários, o acesso ao tratamento ainda é restrito devido ao alto custo e às regras de propriedade intelectual. Organizações da sociedade civil defendem a ampliação da produção de versões genéricas para tornar o medicamento acessível aos sistemas públicos de saúde.

Durante o evento, a diretora executiva do Unaids, Winnie Byanyima, afirmou que o avanço científico precisa ser acompanhado por políticas que garantam acesso à população.

Segundo ela, “inovação sem acesso não é inovação, é injustiça”, ressaltando que o verdadeiro sucesso depende da capacidade de fazer os medicamentos chegarem às pessoas que mais precisam.

Brasil defende ampliação do acesso

Representantes da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) também criticaram as dificuldades enfrentadas por países em desenvolvimento para obter acesso aos novos medicamentos.

A entidade afirma que o Brasil possui capacidade técnica para produzir versões genéricas do lenacapavir a um custo muito inferior ao praticado atualmente no mercado internacional, o que poderia ampliar significativamente a prevenção da doença pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Especialistas estimam que cerca de 20 milhões de pessoas no mundo precisariam ter acesso à prevenção baseada em medicamentos para que seja possível reduzir de forma consistente a transmissão do vírus.

Queda de recursos preocupa especialistas

Além da redução específica dos investimentos em HIV, o relatório mostra que a ajuda internacional ao desenvolvimento caiu 23% em 2025, a maior retração já registrada. Grande parte desse corte atingiu programas de saúde pública.

Segundo o Unaids, a diminuição dos recursos ameaça principalmente organizações comunitárias responsáveis pelo atendimento de populações mais vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, usuários de drogas injetáveis e profissionais do sexo.

Sem o fortalecimento dos investimentos nacionais e internacionais, a agência alerta para o risco de interrupção de serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Novas infecções ainda preocupam

Mesmo com a redução histórica da mortalidade nas últimas três décadas, o HIV continua representando um desafio global.

Dados apresentados pelo Unaids apontam que, em 2025, foram registradas cerca de 1,2 milhão de novas infecções e aproximadamente 570 mil mortes relacionadas à Aids em todo o mundo.

O levantamento também mostra que 22% das pessoas que vivem com HIV ainda não recebem tratamento, enquanto novas infecções cresceram em 21 países, evidenciando que a epidemia permanece ativa.

Durante a conferência, representantes da ONU defenderam a ampliação dos investimentos, o combate às desigualdades no acesso aos medicamentos e o fortalecimento das políticas públicas como medidas essenciais para evitar retrocessos no enfrentamento da doença.

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