
Popularização das canetas emagrecedoras reforça a importância da hidratação para prevenir complicações durante o tratamento, alertam especialistas
As canetas emagrecedoras estão cada vez mais presentes na rotina dos brasileiros. Pesquisa do Instituto Locomotiva, divulgada em abril de 2026, aponta que 62% da população conhece alguém que já utilizou ou ainda utiliza medicamentos à base de semaglutida ou tirzepatida. Em 33% dos domicílios pesquisados, havia ao menos um morador com essa experiência.
Com a popularização desses medicamentos, os cuidados durante o tratamento também merecem atenção. No entanto, muitas pessoas focam apenas na alimentação e na perda de peso, mas acabam negligenciando um dos pilares mais importantes da saúde: a hidratação. Isso porque a maior saciedade e os efeitos colaterais, como náuseas, vômitos e diarreia, podem dificultar a ingestão adequada de líquidos e, em determinadas situações, favorecer a desidratação.

Odilon Coral – Foto: arquivo pessoal
Segundo o endocrinologista Odilon Coral, as canetas emagrecedoras retardam o esvaziamento do estômago, aumentando a sensação de saciedade. Com isso, o paciente pode reduzir também a ingestão de líquidos. O médico esclarece que essas substâncias não atuam diretamente no centro cerebral responsável pela sede. “A redução do consumo ocorre pela maior saciedade e efeitos colaterais. Eles [os medicamentos] não têm ação no centro da sede”, reitera.
A água participa de praticamente todos os processos do organismo, seja no metabolismo energético, na digestão, no funcionamento dos rins, na regulação da temperatura corporal ou no transporte de nutrientes. Por isso, durante o processo de emagrecimento, especialmente quando o déficit calórico está mais elevado, manter uma hidratação adequada se torna ainda mais relevante.
“A regra básica de ingesta de líquidos não muda nos pacientes que usam essas medicações. Normalmente recomendamos uma média de 30 ml por quilo de peso corporal. O que é essencial no momento da utilização das ‘canetas’ é a atenção a esse consumo”, explica Coral.

Daniela Proença – Foto: arquivo pessoal
Segundo a presidente do CRF-MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul), Daniela Proença, já existem estudos e alertas nas próprias bulas sobre o risco de desidratação e possíveis alterações na função dos rins. “Mas é importante esclarecer que, quando bem indicados, esses medicamentos também podem trazer benefícios importantes à saúde, inclusive à função renal em determinados pacientes”, esclarece.
A farmacêutica detalha de que maneira a hidratação insuficiente afeta o órgão durante o tratamento. “Os rins precisam de uma circulação sanguínea adequada para funcionar bem. Quando a pessoa perde muito líquido ou não se hidrata suficientemente, pode ocorrer uma redução do volume de sangue circulante, prejudicando a filtração realizada pelos rins. Se essa situação persistir, pode haver comprometimento da função renal”, alerta Daniela.
Diante disso, ela reforça que o uso exige avaliação individualizada e acompanhamento constante. “O objetivo é perder peso, quando existe indicação, sem comprometer a saúde. E, para isso, orientação e acompanhamento profissional são fundamentais. Não podemos pensar apenas no número que aparece na balança”, conclui.
Aumento da ingestão
Embora a medicação possa reduzir a percepção de sede em muitos casos, em outros o próprio organismo reage pedindo mais líquidos para compensar a perda metabólica ou o déficit hídrico, como é o caso da jovem Gabrielli Rodrigues, de 27 anos, que sentiu mais sede durante o uso do medicamento. Ela iniciou o tratamento há dez meses e recorreu à tirzepatida produzida em um laboratório dos Estados Unidos. A enfermeira contou com acompanhamento de um médico endocrinologista, buscando emagrecer e tratar uma compulsão alimentar. “Iniciei o tratamento devido a uma relação totalmente dependente da comida, então, quando dei esse passo, associado também à psicoterapia, consegui lidar totalmente com a questão da compulsão alimentar e do comer emocional.”

Gabrielli Rodrigues – Foto: Brenda Leitte
Ao longo desse processo, outros desafios foram surgindo. Para Gabrielli, a percepção de mais sede foi nítida. A cada dose aplicada semanalmente, a busca por hidratação adequada também aumentava. “Sempre tive o hábito de beber muita água, mas, depois que iniciei o tratamento, pude sentir que aumentei a ingestão hídrica, comecei a sentir mais sede e, consequentemente, me hidratar mais, aumentando significativamente a porcentagem de água do corpo”, relatou.
Acostumada a controlar a quantidade de água ingerida por dia, a jovem registrou em seu acompanhamento um salto de 1,5 litro de água para ao menos 2,5 litros por dia. “Logo depois que iniciei o tratamento, já comecei a sentir mais sede. E isso foi orientado pelo meu médico como um dos ‘efeitos colaterais’, digamos assim. O fato de ter um acompanhamento especializado e, principalmente, individualizado fez toda a diferença para mim, pois eu estava preparada para lidar com a forma como meu corpo reagisse”, afirmou.
Ao todo, foram 16 quilos eliminados e, com eles, um hábito fortalecido ainda mais. “Por mais que a gente se policie no dia a dia para se manter hidratada, às vezes, diante da correria, pode passar despercebido. Mas, como a sede esteve presente em todo o momento devido à medicação, senti meu corpo mais hidratado nos últimos meses e tenho mantido assim. Além de atingir meu objetivo entre perder peso e tratar a compulsão alimentar, fortaleci meu hábito de beber água e estar sempre hidratada para o bem de vários outros fatores do meu corpo. Até porque não adianta estar magra, mas desidratada, não é mesmo?!”, brincou.
Qualidade da água
Para garantir que a hidratação cumpra seu papel protetor no organismo, é necessário o acesso a uma água tratada e segura, afinal, a qualidade do recurso também faz parte dos cuidados com a saúde. Em Campo Grande, a Águas Guariroba mantém mais de 300 pontos de monitoramento e acompanha 83 parâmetros físicos, químicos e bacteriológicos ao longo do sistema de abastecimento, desde a captação até a distribuição.
Segundo a gerente de Operações da concessionária, Luciara Helena de Oliveira Peruzzi, no último ciclo anual foram coletadas mais de 76,9 mil amostras, que resultaram em mais de 520 mil análises laboratoriais.
“O nosso sistema opera dentro dos padrões mais rigorosos de excelência e conformidade regulatória definidos pelos órgãos fiscalizadores. Caso ocorra alguma oscilação pontual na rede, como em manutenções emergenciais ou descargas necessárias na tubulação, a nossa equipe atua de imediato e de forma preventiva, realizando novas coletas até a normalização completa”, complementa a gerente de Operações.
Por Rafaela Alves e Brenda Leitte
