Do banho à alimentação, a água tratada está presente em momentos decisivos dos primeiros anos de vida

O dia de uma criança de 1 ano começa com pequenos gestos: o rosto lavado ao despertar, os primeiros goles de água, o banho, as mãos limpas antes das refeições e os alimentos preparados com cuidado. Em cada uma dessas atividades, a água está presente — muitas vezes, sem que a família perceba a dimensão de sua importância.

Na primeira infância (0 a 6 anos), período marcado pelo crescimento e por intensas descobertas, o acesso à água potável vai além da hidratação. Ele também está relacionado à higiene, à segurança alimentar e à prevenção de doenças. Na rotina da pequena Maria Júlia, de 1 ano e 6 meses, cada etapa do dia ajuda a revelar como um recurso essencial se transforma em parte dos cuidados que sustentam a saúde desde os primeiros anos de vida.

“Como pais, a gente sempre quer oferecer o melhor para os nossos filhos. E é a partir dos nossos filhos que passamos a nos importar com cada detalhe, inclusive a água tratada. São ‘pequenos detalhes’, que são, na verdade, fundamentais, mas que antes não dávamos tamanha relevância. Com a chegada da Majú em nossas vidas, foi que passamos a perceber que uma água saudável é indispensável na criação de uma criança”, refletiu o empresário Caio Araújo, de 28 anos, pai de Maria Júlia.

Participando de cada detalhe da rotina da filha, Caio afirma que já é possível ver os reflexos do saneamento na saúde da pequena. “Creio que vários fatores colaboram para a saúde dela. Além das vacinas e uma boa alimentação, a água tratada contribui para essa ‘saúde de ferro’ que ela tem, tendo em vista que está presente em todas as atividades dela, desde o acordar até a hora de ir dormir”, contou.

“É triste pensar que crianças da mesma idade dela já possam ter enfrentado quadros críticos de saúde pela falta de saneamento. Eu e ela fazemos parte de uma geração que já nasceu tendo água tratada e esgoto em casa, conhecendo apenas essa realidade, mas meus avós, de gerações anteriores, não tiveram o mesmo privilégio”, acrescentou ele.

Quando o assunto são as crianças, o saneamento ajuda a proteger uma fase em que saúde e desenvolvimento caminham juntos. Nos primeiros anos, a higiene, a qualidade da água e as condições de saneamento são fundamentais para reduzir a exposição a agentes infecciosos.

A água é essencial para a vida. O cérebro, o coração, os rins e os pulmões precisam de hidratação contínua para funcionar, e o corpo necessita de água para digestão, absorção de nutrientes e circulação sanguínea.

De acordo com o pediatra Dr. Alberto Jorge Félix, que atua no hospital Unimed Campo Grande, crianças bebem mais água por quilo de peso do que adultos, com bebês consumindo uma maior quantidade. Além de que a disponibilidade e qualidade da água são fundamentais para o desenvolvimento infantil, especialmente no período pré-natal e na primeira infância.

“Existe uma relação muito estreita entre a ingestão de uma água não tratada pelas crianças e o aparecimento de doenças. É de conhecimento que uma água não tratada, ela pode veicular, principalmente, bactérias ou vírus que podem causar infecções intestinais bacterianas ou virais, assim como enteroparasitoses, verminoses, por exemplo”, pondera.

O profissional ainda explica que os impactos da falta de saneamento para uma criança podem repercutir diretamente no aumento da mortalidade infantil. “As crianças que têm acesso e ingerem água tratada, que têm um bom saneamento básico em sua região, são mais saudáveis. Um fator muito importante para a redução da mortalidade infantil”, ressalta.

Necessitando de uma atenção especial, estão as crianças menores. Conforme o pediatra, o organismo de um bebê é mais vulnerável a esses agentes contaminantes do que uma criança mais velha ou um adulto. “A criança, quanto menor, ela ainda está em fase de maturação do seu sistema imunológico. O que aumenta a vulnerabilidade dessa criança menor. Além de que elas possuem uma necessidade hídrica maior, já que perdem líquido muito rápido, então isso acaba levando a uma desidratação. O intestino, o organismo como um todo, ainda está em desenvolvimento, então, para uma criança menor, isso é muito mais prejudicial”.

Do ponto de vista nutricional, os impactos também são preocupantes. De acordo com a explicação da nutricionista materno-infantil Isabella Pereira Ferro, quando a criança ingere uma água que pode estar contaminada com parasitas e bactérias, isso pode acarretar em algum tipo de gastroenterite ou outras doenças, afetando diretamente o apetite. “Caso isso ocorra, pode causar uma redução do peso, pois afeta o estado nutricional dessa criança, porque ela vai estar comendo menos; pode afetar também em relação à absorção de vitaminas e minerais, perda excessiva de eletrólitos, líquidos… Tudo isso vai acarretar no estado nutricional dessa criança doente”, explica.

De forma mais clara, quando a criança toma uma água que não é tratada, isso pode gerar algum tipo de infecção intestinal e, consequentemente, em uma perda excessiva de nutrientes por meio da diarreia, do vômito, bem como da redução do apetite. “Como consequência de todos esses fatores citados, a criança não vai conseguir comer adequadamente as vitaminas e minerais que fazem parte ali do desenvolvimento, tanto para o neurodesenvolvimento quanto também o de crescimento e peso. Então uma coisa vai levando à outra, dando abertura a problemas futuros”, alerta a profissional.

Além do contato direto com a água, como a hidratação, outro fator que pode passar despercebido no dia a dia é a higienização adequada dos alimentos com uma água limpa. “A água potável é essencial desde a introdução alimentar de uma criança, porque é onde vai interromper a transmissão de microrganismos a partir do momento em que a gente higieniza corretamente os alimentos que vão para a nossa mesa. A criança também tem o instinto de colocar tudo na boca, a mão principalmente. Então, quando a gente tem uma água adequada para a higienização das mãos, dos alimentos, evita essa transmissão, quebrando esse ciclo que seria criando cheio de doenças com prejuízo nutricional”, acrescenta.

Diferente do que muita gente pensa, garantir água potável e saneamento básico não é apenas prevenir diarreias. É proteger o estado nutricional, favorecer o crescimento adequado e criar condições para que cada criança alcance seu potencial de desenvolvimento. “Na primeira infância, nutrição adequada, água segura, saneamento e higiene caminham juntos. Não basta oferecer alimentos nutritivos; é necessário garantir que eles sejam preparados em condições seguras e que a criança cresça em um ambiente saudável. Além, claro, da vacinação em dia, e assim teremos um ambiente mais protegido para nossas crianças”.

O QUE A CRIANÇA NÃO VÊ

Para uma criança, a água é rotina. No entanto, para que essa rotina exista, há uma estrutura inteira trabalhando nos “bastidores”.

Em Campo Grande, atualmente, cerca de 95% da população já conta com acesso à rede de esgoto e 99,8% recebe água tratada.

De acordo com dados disponibilizados pela concessionária responsável pelos serviços de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto na Capital, somente este ano, a soma das novas redes implantadas alcança quase 200 quilômetros, beneficiando uma média de 40 mil pessoas diretamente, entre elas, vários pequenos.

Conforme o diretor-presidente da concessionária, Gabriel Buim, a meta é de alcançar 98% de cobertura até 2028, ampliando os benefícios do saneamento para milhares de famílias. “Estamos avançando de forma consistente na ampliação do sistema de esgotamento sanitário, levando mais saúde, dignidade e valorização para as regiões atendidas”, garantiu.

Prevenção de doenças reflete nos gastos com a saúde

Estudo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), desenvolvido com base em dados do DATASUS e do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), aponta que a relação entre saneamento e saúde pode ser observada na prática em Campo Grande. A pesquisa demonstra que a ampliação da cobertura da rede de esgotamento sanitário resultou na redução expressiva das internações por Doenças Diarreicas Agudas (DDAs).

Segundo o coordenador da pesquisa, professor Ariel Ortiz Gomes, entre os anos de 2003 e 2021, a população atendida com esgotamento sanitário passou de cerca de 137 mil para mais de 774 mil pessoas, refletindo no número de internações por essas doenças, o qual caiu de 1.111 para 101 casos. “Entre crianças menores de quatro anos, um público considerado mais vulnerável a essas enfermidades, a redução foi ainda mais significativa, saindo de 842 para apenas 22 internações no mesmo período.

A pesquisa ainda mostra a transformação da infraestrutura em um intervalo pequeno. Em 18 anos, a cobertura de esgoto saltou de 19% em 2003 para 89% em 2021, com a inclusão de cerca de 665 mil pessoas no sistema.

O pesquisador também chama a atenção para os impactos na economia. “Além da saúde, há reflexos diretos nas contas públicas. Gastos com internações por doenças diarreicas passaram de cerca de R$ 48 mil por 100 mil habitantes em 2003 para aproximadamente R$ 7 mil em 2017”, analisa.

Dando ainda mais dimensão aos impactos do saneamento com relação à saúde, em junho deste ano, o Instituto Trata Brasil divulgou o estudo “Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento no Mato Grosso do Sul”, o qual aponta a ampliação dos serviços entre os anos de 2005 e 2024, período este que proporcionou uma economia potencial estimada de R$ 1,313 bilhão em custos com saúde no Estado, o equivalente a cerca de R$ 69,1 milhões por ano.

De acordo ainda com o estudo, é possível compreender que investir em saneamento significa não apenas prevenir doenças, mas também reduzir a demanda por atendimentos e internações, permitindo assim que recursos sejam direcionados para outras áreas da saúde.

MAIS PEQUENOS PROTEGIDOS, FUTURO GARANTIDO!

Além da Maria Júlia, outras crianças passarão a viver a mesma realidade, com a chegada de mais um pilar do saneamento nas regiões da Capital que ainda aguardavam por essa conquista. Famílias que residem no bairro Cristo Redentor estão entre as que receberam recentemente o esgotamento sanitário.

É o caso do Thiago Gomes, pai de dois filhos, de 13 e 1 ano, que vibra com a chegada da rede de esgoto na rua de casa. A partir de agora, fossas e escoamento a céu aberto não fazem mais parte do dia a dia da família. “Foi uma felicidade sem tamanho quando vimos começar as obras aqui na rua. Com o esgoto, a gente espera que tudo melhore, principalmente na saúde das crianças, que é a maior preocupação na vida de quem é pai e mãe. Só de saber que meus filhos não estarão mais expostos à água suja escorrendo pelo quintal, podendo ter contaminações, ou até mesmo o perigo de uma fossa desabando ou coisas do tipo, é menos um problema na vida da gente. Saúde de filho é uma coisa que tira nossa paz. Se ‘tá’ saudável, o resto a gente corre atrás”, disse o promotor de merchandising, de 43 anos.

Para ele, os benefícios vão além da infraestrutura. Thiago relaciona a chegada da rede de esgoto na região onde mora com mais conforto na rotina, como quintais mais limpos e menos incômodo com insetos devido à água contaminada, além de mais tranquilidade para toda a família.

Mais do que expandir redes e estruturas de tratamento de água, o avanço do saneamento em cada lar simboliza um investimento na prevenção de doenças, na qualidade de vida — seja de crianças ou adultos — e na construção de um ambiente mais saudável e seguro para o desenvolvimento das próximas gerações.

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