No Jardim Los Angeles, iniciativa que começou com 50 centavos ajuda mulheres a conquistar autonomia financeira e sonhar com produtos nas prateleiras dos supermercados
Matéria escrita por Michelly Perez
Pelas ruas do Jardim Los Angeles, em Campo Grande, bolhas de sabão ganham o ar durante uma brincadeira entre crianças. Coloridas e leves, elas carregam uma fórmula que vai muito além dos ingredientes químicos: tem uma dose de força cooperadora. Por trás do portão de uma casa do mesmo bairro, o sabão produzido por um grupo de trabalhadores ajuda a pagar contas, realizar sonhos e transformar a vida de pessoas que descobriram na cooperação uma oportunidade de construir o próprio futuro.
É no quintal de Maria Diva da Silva, de 53 anos, que funciona a CoopFame (Cooperativa de Trabalho e Empreendimento Mãos que Criam Mulheres Empreendedoras). Entre garrafas, galões e produtos de limpeza, quatro mulheres e dois homens dividem tarefas, conversas, risadas e os ganhos das vendas. O cheiro das misturas invade o jardim enquanto o grupo acompanha cada fórmula. Em um dos quartos da residência, transformado em espaço de exposição, os produtos aguardam compradores. Mas o sonho é vê-los nas prateleiras dos supermercados.
Na imagem: Diva, Iris e Sirlene sorriem no quintal onde diariamente trabalham na produção dos produtos de limpeza
Tudo começou em agosto de 2024, quando uma oficina Bolha de Sabão, promovida pela Águas Guariroba, ensinou 15 mulheres a transformar óleo de cozinha usado em sabão. Diva enxergou naquela experiência uma oportunidade.
“Eu sempre digo que nós iniciamos com a cara, a coragem e com 50 centavos que a gente tinha para comprar a primeira soda”, recorda Diva, entre risos.
R$ 0,50 foram suficientes para tirar o sonho do papel e transformar em realidade.
Inicialmente, o projeto deu origem à APFAME (Associação Projeto Feira de Artesanato Mãos que Criam Mulheres Empreendedoras). Com o crescimento das atividades e a persistência de quem sonhava grande, as participantes perceberam que precisavam formalizar o negócio para ampliar as vendas. Assim, em novembro de 2025, nasceu a CoopFame.
Para a superintendente do Sistema OCB/MS (Sindicato e Organização das Cooperativas Brasileiras no Mato Grosso do Sul), Ariane Zen, a trajetória dessas mulheres representa a essência do cooperativismo: transformar recursos limitados em oportunidades econômicas por meio da organização coletiva.
“A trajetória da cooperativa representa de uma maneira muito concreta o que é a essência do cooperativismo, essa capacidade de transformar esses recursos limitados em oportunidades reais por meio da organização coletiva”, afirma Ariane Zen.
Agente comunitária de saúde e formada em Serviço Social, Diva enfrentou a falta de recursos e a desconfiança até mesmo de outras mulheres que não acreditavam no empreendimento. Mas desistir nunca foi uma opção.
“É difícil? É. Nada na vida da gente é fácil. Mas a gente não pode esquecer daquilo que a gente acredita. Todo mundo começa assim.”
Quando o sabão transforma vidas
Aos 63 anos, Iris Gregório foi uma das participantes que acreditaram no projeto desde o início. Na cooperativa, encontrou a possibilidade de realizar desejos que precisavam esperar. Com o dinheiro das vendas, comprou óculos de grau e começou a pagar uma prótese dentária fixa.
Iris ajudou a formar a cooperativa
“Já comprei o óculos de grau. O dinheirinho também me ajudou a colocar uma prótese fixa nos dentes. Aos pouquinhos a gente vai tirando os sonhos da lista”, comemora.
Quando o assunto é o futuro, Iris pensa além das conquistas pessoais. Deseja que a cooperativa cresça e ofereça oportunidades a outras mulheres que também precisam levar renda e dignidade para dentro de casa.
“Daqui a um tempo, quero que a gente tenha expandindo pra todo o Estado, ajudando outras mulheres […] Que tenha muitas mulheres que também façam como nós fizemos”.
Foi justamente a vontade de ver outras mulheres conquistando seus sonhos que levou Iris a convidar Sirlene Almeida, de 47 anos, para participar. A princípio, a amiga confessa que não estava muito convencida de que daria certo. Mas, aos poucos, a curiosidade se transformou em entusiasmo.
“Eu vim na curiosidade, confesso que não queria, não. Mas depois você vai se envolvendo e vai vendo a mágica acontecer. É muito bom quando a gente chega aqui com um monte de ideias na cabeça e no fim do dia vê tudo prontinho”, conta, sorrindo.
O convite chegou em um momento de dificuldades financeiras. Com o marido desempregado, Sirlene enfrentava contas acumuladas. Aos poucos, a renda da cooperativa ajudou a quitar dívidas e até a comprar eletrodomésticos.
Sirlene se surpreendeu com o projeto
“Estava com contas. Então consegui quitar várias dívidas. Comprei alguns eletrodomésticos que eu queria muito. Então, assim, é um dinheiro que vem para somar.”
Mas a transformação não ficou restrita ao orçamento familiar. Entre misturas e embalagens, Sirlene encontrou um espaço onde as preocupações dão lugar à alegria.
“Quando você vê, você fica encantado com o produto final. E uma ajuda a outra, né? Eu acho que isso é legal também. A gente ri, conversa aqui, escuta uma musiquinha de fundo e o trabalho vai fluindo.”
Para Ariane Zen, o cooperativismo também fortalece a autonomia feminina ao proporcionar oportunidades de liderança, participação nas decisões e independência econômica.
“A autonomia financeira feminina é um dos fatores relevantes para a construção de uma sociedade economicamente mais inclusiva e com maiores oportunidades de desenvolvimento”, destaca.
Segundo a superintendente, o protagonismo feminino integra a agenda do Sistema OCB/MS por meio do movimento Elas Pelo Coop MS, que incentiva a participação das mulheres nos espaços do cooperativismo.
“A gente entende que ampliar a participação feminina não é só uma questão de inclusão, mas também de fortalecimento dos negócios”, acrescenta.
Um quintal para sonhos grandes
Atualmente, a CoopFame produz sabão em barra, sabão líquido, detergente para roupas, sabonetes, desinfetantes e água sanitária em gel. Segundo Diva, o grupo já demonstrou capacidade de fabricar até 500 produtos em dois dias.
Sabão em barra e sabonetes ganham embalagens artesanais
O cuidado e a preocupação em oferecer produtos de qualidade acompanham cada etapa. As cooperadas avaliam o pH, a consistência e o desempenho das fórmulas, muitas vezes testadas nas próprias casas. Segundo elas, os produtos são utilizados para retirar gordura de churrasqueiras, lavar roupas brancas e limpar peças coloridas sem provocar manchas.
O grupo também começou a investigar novas aplicações e fórmulas para a limpeza pesada de áreas externas, incluindo pedras nas bordas de piscinas.
Cada gota de suor parece compensada quando os resultados agradam. Os elogios dos consumidores alimentam a vontade de melhorar, enquanto as recomendações de cliente para cliente ajudam a ampliar as vendas.
Vizinhos fazem doações de galões e garrafas plásticas
A preocupação ambiental também faz parte dessa rotina. Desde a primeira oficina, as mulheres aprenderam que aquilo que seria descartado pode ganhar uma nova finalidade. O óleo de cozinha usado por moradores do bairro e familiares se transforma em matéria-prima, enquanto garrafas e galões recebidos de vizinhos e amigos são higienizados e reaproveitados.
As cooperadas ainda ampliaram as experiências com materiais como a borra de café, que também é utilizada na fabricação de sabão. Assim, além de empreender, passaram a incentivar o reaproveitamento de resíduos na comunidade.
Esse trabalho ajuda a evitar o descarte inadequado de materiais. Segundo a Águas Guariroba, em 2025 foram retiradas mais de 690 toneladas de resíduos sólidos da rede de esgoto de Campo Grande. Já o programa De Olho no Óleo arrecadou mais de 67 mil litros de óleo usado em 15 anos.
A oficina Bolha de Sabão, que deu origem à CoopFame, capacitou mais de 1.150 pessoas desde 2021, em 80 atividades.
Agora, o desafio é crescer. Para Ariane Zen, isso exige planejamento, controle de custos, profissionalização e atenção às exigências de comercialização dos produtos.
Sabonete ilustra a marca e preocupação com o meio ambiente
“A cooperação é o ponto de partida, mas a profissionalização é o que proporciona as condições para sustentabilidade do empreendimento”, ressalta.
A experiência da CoopFame integra um setor que reúne 145 cooperativas registradas em Mato Grosso do Sul, mais de 738 mil cooperados e 17 mil postos de trabalho. Segundo dados apresentados pela superintendente, o cooperativismo representa 18,2% do PIB estadual. No ramo Trabalho, Produção de Bens e Serviços, são 11 cooperativas registradas no Sistema OCB/MS.
No Jardim Los Angeles, porém, a força desses números aparece em conquistas mais próximas: os óculos de Iris, as contas quitadas por Sirlene e o quintal que Diva transformou em oportunidade.
Os sonhos que permanecem
Se Iris deseja levar a cooperativa a outras regiões e Sirlene espera inspirar mulheres que têm medo de empreender, Diva alimenta um sonho que ultrapassa os limites da própria casa.
“Mas o maior sonho nosso é gerar emprego na nossa comunidade e ver nossos produtos nas prateleiras dos supermercados.”
Por enquanto, a produção continua no quintal, entre embalagens reaproveitadas, fórmulas e tarefas compartilhadas. No quarto reservado para expor os produtos, cada garrafa representa um pequeno passo em direção ao futuro que as cooperadas desejam construir.
Naquele espaço, o sabão carrega mais do que a promessa de limpeza. Guarda histórias de superação, conquistas que antes pareciam distantes e a esperança de quem descobriu que a união pode transformar dificuldades em oportunidades.
Do lado de fora, as bolhas de sabão desaparecem no ar em poucos segundos, entre as gargalhadas das crianças. Dentro da casa de Diva, porém, a transformação que começou com apenas 50 centavos continua ganhando forma.