Mato Grosso do Sul deve registrar aumento nos casos de dengue em 2026, segundo projeções do desafio internacional InfoDengue–Mosqlimate, desenvolvido por pesquisadores da Fiocruz e da FGV (Fundação Getulio Vargas).

A estimativa aponta que o coeficiente de incidência no Estado pode subir de 492,99 casos por 100 mil habitantes, em 2025, para 674,54, em 2026, patamar considerado epidêmico pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Apesar do número elevado, o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), destaca que a projeção não significa, necessariamente, um agravamento inevitável do cenário.

Ele explica que o estudo se baseia em modelos matemáticos que analisam, principalmente, a imunidade da população, a circulação do mosquito Aedes aegypti e dados epidemiológicos históricos.

“É importante destacar que esses modelos não levam em conta intervenções preventivas recentes”, afirma Croda.

Segundo ele, Mato Grosso do Sul vem de dois anos consecutivos de queda nos casos de dengue, movimento diferente do observado em boa parte do Brasil. Esse período de baixa aumenta a proporção de pessoas suscetíveis, o que ajuda a explicar a expectativa de retomada da transmissão.

Ações preventivas nas maiores cidades

No entanto, o pesquisador ressalta que o Estado adotou estratégias que podem alterar significativamente o cenário projetado.

Em Campo Grande, foi concluída, em dezembro de 2023, a liberação do mosquito com Wolbachia, tecnologia que reduz a capacidade de transmissão da dengue. A estimativa é de que a medida tenha provocado uma redução de cerca de 63% nos casos em 2024.

Já em Dourados, houve vacinação em massa com a Qdenga, em uma parceria entre Fiocruz, município e iniciativa privada.

“Essas duas intervenções ocorreram justamente nas maiores cidades do Estado e não foram captadas pelos modelos. Por isso, existe a possibilidade de que a projeção não se confirme na prática”, explica Croda.

Ele reforça que, mesmo com tecnologia e vacina, a principal recomendação continua sendo a eliminação de focos do mosquito, especialmente no início do período sazonal.

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde mostram que, em 2025, Mato Grosso do Sul registrou 13.888 casos prováveis de dengue, com 20 mortes confirmadas. Em 2024, foram mais de 18 mil casos prováveis e 31 óbitos.

Para as autoridades de saúde, os números reforçam a necessidade de manter vigilância ativa e ações preventivas contínuas em 2026.

Zika e chikungunya

Além da dengue, outras arboviroses preocupam em Mato Grosso do Sul. O Estado teve, em 2025, 14.096 casos prováveis de chikungunya, a segunda maior incidência do país, atrás apenas de Mato Grosso. Foram 17 mortes confirmadas, o que representa cerca de 14% de todos os óbitos por chikungunya no Brasil no período.

Em relação à zika, MS registrou 4.119 casos prováveis em 2025, com um óbito confirmado.

SES vê início de 2026 com baixa transmissão

Consultada sobre possível previsão de casos de dengue para 2026, a SES (Secretaria de Estado de Saúde) afirma que ainda não é possível estabelecer uma previsão definitiva sobre o comportamento da dengue, zika e chikungunya ao longo de 2026 em Mato Grosso do Sul.

De acordo com a pasta, os dados iniciais da Semana Epidemiológica 01/2026 indicam um cenário de baixa transmissão, mas essas são informações parciais, que podem sofrer alterações conforme a atualização dos municípios.

Segundo a nota emitida pela SES, até o momento, o Estado contabiliza 132 casos prováveis de dengue, com dois confirmados, e 131 casos prováveis de chikungunya, também com duas confirmações. Em relação ao vírus zika, a SES informa que não há, até agora, registro de relevância epidemiológica em Mato Grosso do Sul.

A tendência ao longo do ano, segundo a secretaria, dependerá de fatores como condições climáticas, densidade do mosquito, circulação viral e da efetividade das ações de vigilância e controle.

No caso da dengue, a SES destaca uma redução progressiva nos últimos anos, especialmente entre 2023, 2024 e 2025, movimento que reflete o impacto das ações integradas de prevenção e controle adotadas no Estado.

Já a chikungunya seguiu caminho diferente: não houve redução entre 2024 e 2025, sendo que o ano passado foi marcado por um cenário epidêmico, com mais de 14 mil casos prováveis. Ainda assim, a comparação com o início de 2026 aponta queda significativa no número de registros, após o pico da transmissão, embora os dados ainda sejam preliminares.

Riscos permanecem

Apesar do cenário inicial mais favorável, a SES alerta que os riscos permanecem. O mosquito Aedes aegypti continua amplamente presente nos municípios, e fatores climáticos podem favorecer uma retomada da transmissão ao longo do ano. A secretaria ressalta que a diminuição de casos neste começo de 2026 não elimina a possibilidade de novos surtos, inclusive com ocorrência de casos graves e óbitos, sobretudo entre populações mais vulneráveis.

Diante disso, a pasta reforça a necessidade de manter vigilância epidemiológica e entomológica contínua, controle vetorial permanente, eliminação de criadouros, assistência adequada aos casos suspeitos e notificação oportuna no Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), considerado essencial para o monitoramento e a tomada de decisões em saúde pública.

A SES também reforça o apelo à população para a adoção de medidas preventivas, como eliminar recipientes com água parada, vedar caixas-d’água, descartar corretamente lixo e entulho e manter a limpeza de calhas, ralos e outros pontos que possam se tornar criadouros do mosquito.

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