Conteúdos perturbadores e exposição dos menores podem causar efeitos severos na saúde mental dos jovens

Nas redes sociais, é possível encontrar quase todo tipo de conteúdo. Recentemente, cada vez mais, ganham espaço os vídeos curtos, que circulam rapidamente pelos usuários. No entanto, as publicações compartilhadas em aplicativos como TikTok, Instagram e X podem conter conteúdos perturbadores e, sobretudo, inadequados para crianças e adolescentes.
Em fase de desenvolvimento pessoal, os efeitos das redes sociais podem ser ainda maiores nesse grupo. Diante desse impacto, uma nova lei entra em vigor no Brasil a partir da próxima terça-feira (17), restringindo o uso das plataformas digitais, aplicativos e jogos on-line para menores de 16 anos.
As regras da Lei 15.211/25 determinam que as plataformas tenham sistemas para identificar quando o usuário é menor de idade, substituindo a autodeclaração. Os menores de 16 anos só poderão utilizar redes sociais e aplicativos se suas contas estiverem vinculadas a um perfil ou identificação de um de seus responsáveis legais.
A legislação ganhou força após a repercussão da adultização de crianças, em meados de 2025, quando o influencer Felca divulgou um vídeo sobre o tema. O principal denunciado, Hytalo Santos, e seu marido, Israel Vicente, foram presos por exploração sexual de adolescentes. As denúncias levaram o tema à Câmara dos Deputados, onde o projeto de lei foi apresentado e aprovado pelo Senado. Posteriormente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o sancionou em setembro do ano passado.
‘Trends’ perigosas e conteúdos perturbadores expõem menores

Os vídeos e as postagens encontrados nas redes sociais podem conter conteúdos inadequados aos menores de idade. O psicólogo clínico e judiciário William Souza (CRP 14/04624-9), que compõe o Núcleo de Infância, Adolescência e Juventude, explica que a exposição a essas mídias pode ser prejudicial ao grupo, devido a sua vulnerabilidade.
“Sobretudo adolescentes que já têm uma questão de vulnerabilidade de adoecimento mental, são particularmente mais sensíveis. Esse tipo de conteúdo pode levar comportamentos autodepreciativos, chegando a automutilações e, inclusive, com o risco de morte”.
Essas ‘trends’ que se espalham rapidamente entre os jovens já resultou, diversas vezes, em mortes de menores. No início deste mês, uma menina de nove anos morreu, em Campo Grande, supostamente por participar do desafio do desodorante.
Na ‘brincadeira’ em questão, o ‘participante’ deve inalar pelo máximo de tempo possível o desodorante. A prática é extremamente perigosa e prejudicial. Outra ‘trend’ que ficou famosa há alguns anos foi a Baleia Azul, que teve repercussão em todo o país. Os desafios propostos incluíam automutilação, envenenamento e até mesmo o suicídio.
O psicólogo afirma que essas ‘trends’ se espalham mais facilmente entre os adolescentes, que estão em fase de construção da personalidade e buscam encontrar pertencimento e validação de um grupo.
“A gente constitui nossa personalidade a partir da interação com o outro, da validação do grupo, e é isso que o adolescente tá buscando”. Conforme o especialista, a idade apresenta diversas inseguranças sobre as escolhas, pensamentos e comportamentos, e, por isso, os jovens validam as ‘brincadeiras’, apesar do risco.
“Esse adolescente tem dificuldade de analisar os riscos, de avaliar o que realmente vale a pena, o que não vale, porque o foco dele está em testar os próprios limites e alcançar a validação do grupo”.

Impactos psicológicos
As crianças e os adolescentes, no entanto, podem sofrer outras consequências prejudiciais com o uso das redes sociais, ainda que menos severas. William explica que os problemas estão relacionados ao desenvolvimento dos menores, principalmente os socioemocionais.
“O impacto está muito associado a problemas como ansiedade, a depressão, a hiperatividade e a agressividade. Principalmente, crianças de 6 a 10 anos de idade estão mais propensas, são as mais acometidas por esse tipo de problema”.
Os efeitos podem atingir o grupo também no âmbito da aprendizagem, já que passam, nessa idade, por fase essencial de formação. Segundo o especialista, crianças entre 9 e 11 anos de idade apresentam muitos problemas em relação à retenção de memória e concentração, além de prejuízos na linguagem e escrita.
As redes também podem ser espaços para manifestação de preconceitos, como ataques racistas, misóginos, homofóbicos, gordofóbicos, que podem se enquadrar como cyberbullying. O psicólogo também alerta para o estabelecimento de padrões de beleza e a excessiva comparação realizada nas plataformas.
“Nós já vivemos em uma sociedade que estabelece padrões de beleza, de corpo, de consumo, e tudo isso na internet, nas redes sociais, fica muito mais impulsionado. Consequentemente, isso pode culminar numa autoestima baixa, em crises depressivas e mais ansiedade.”
Conteúdos perturbadores

Para além destes, conteúdos perturbadores ou assustadores também podem aparecer nas redes. O caso aconteceu com a jovem Gabriela Rezende, de 16 anos, quando utilizava sua conta em uma rede social. Enquanto rolava o feed, ela se deparou com um vídeo que causou espanto. A ‘trend’ era sobre skinwalker, vídeo que mostrava cachorros com comportamentos estranhos, semelhantes a humanos.
“Os vídeos que costumo assistir são o oposto do que vi, e aí do nada apareceu um vídeo que não gostei. Algumas vezes acontece de aparecer vídeos esquisitos, mas me surpreende”, relatou a jovem.
Ela contou que se sentira ansiosa com os vídeos e que inclusive passou a usar menos o aplicativo após o ocorrido. A tendência dos vídeos teria sido originada de uma mitologia da cultura navaja — povo indígena da América do Norte —, que descreve os skinwalkers como figuras malignas capazes de se transformar em animais como cachorros e lobos, ou possuir outras pessoas.
William confirma que esse tipo de conteúdo é ainda mais prejudicial aos jovens, que possuem mais sensibilidade e maior dificuldade em lidar com suas emoções. Os menores também têm mais dificuldade de diferenciar o real do fictício ou mito, aponta o especialista.
“Eu vejo isso como um problema social, e crianças e adolescentes são especialmente afetados nessas condições. Elas podem ter a imagem delas manipuladas, colocando a imagem e a voz delas em situações de constrangimento, podendo sofrer ameaças.”
‘Iscas’ de engajamento podem influenciar algoritmo
O psicólogo cita, inclusive, os deep fakes, criados por IA (inteligência artificial) para manipular e se passar por humanos. As crianças, que já não conseguem diferenciar com precisão o verdadeiro do falso, ficam ainda mais vulneráveis com a técnica.
Os conteúdos, como os próprios skinwalkers, podem ser gerados artificialmente para aumentar o medo sobre os menores e gerar mais engajamento nos vídeos. O cientista de dados e pesquisador em inteligência artificial Guilherme Cioccia explica essa tendência. A prática é chamada de ragebait, termo que virou a palavra do ano do dicionário de Oxford em 2025.
“Basicamente, são postagens potencialmente ofensivas ou que geram polarização de opiniões, servindo apenas como ‘iscas’ de engajamento. A pessoa é manipulada a sentir raiva e a discutir na caixa de comentários, e, se há muita gente engajando nesse conteúdo, ele é mais entregue.”
Assim, os conteúdos chocantes, perturbadores e ofensivos podem ganhar ainda mais destaque e repercussão, atingindo mais jovens. Ele também conta que, por mais que os adolescentes sintam repulsa assistindo a esses tipos de vídeos, eles tendem a não pular o conteúdo imediatamente, por explorarem o foco em negatividade do cérebro humano.
“O algoritmo interpreta esse ‘estado de choque’ como retenção de público, criando um ciclo onde o usuário é alimentado com vídeos cada vez mais extremos para manter o mesmo nível de atenção”. Fulano afirma que o algoritmo também pode confundir a estética de conteúdos infantis (como cores vibrantes, músicas) e acabar entregando vídeos perturbadores aos menores.
Por isso, os vídeos recomendados para os jovens podem entrar em uma espiral de conteúdo perturbador e inadequado, que aumenta conforme a utilização das redes sociais.

Atenção, pais e responsáveis
A recomendação aos pais e responsáveis é que se atentem aos comportamentos dos menores, principalmente ao tempo que eles dedicam ao uso de celulares e redes sociais.
“Mudanças bruscas, como a irritabilidade, agressividade, alteração do sono, ansiedade, dificuldade de manter uma conversa mais prolongada, de aprofundar, por exemplo, conversas em relação aos sentimentos, são alguns dos sinais que pode indicar que que está havendo prejuízo”, explica William.
As crianças, segundo ele, tendem a buscar as telas como forma de compensação para alguma frustração ou irritabilidade. O psicólogo também conta que não existe uma idade ideal para o menor criar uma conta nas redes. A orientação é que os perfis não sejam públicos, para evitar o assédio e aliciamento.
“O ideal seria não ter um perfil público, simplesmente. Não existe um consenso sobre a partir de tal idade. Por isso, é fundamental, por exemplo, um regramento maior do Estado em relação a esses espaços”. Além da legislação que entra em vigor na próxima terça-feira, William recomenda que os pais façam um trabalho em conjunto, fiscalizando a atuação dos menores na internet.
“É fundamental que os pais e os cuidadores estejam sempre atentos a essa criança, adolescente, que possam conversar com eles sobre a experiência nas redes sociais, o que eles conversam. Os pais precisam, sim, estar ali fiscalizando, pegando o celular, podendo ver quais as redes que estão sendo acessadas, para proteger essa criança e esse adolescente.”
