Presidente de hospital buscou apoio da oposição para neutralizar influência da então prefeita, Vanda Camilo

A investigação do Gecoc (Grupo Especial de Combate à Corrupção) — braço investigativo do MPMS (Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul) — demonstrou que o esquema de propina envolvendo vereadores, ex-vereadores e outras pessoas proeminentes em Sidrolândia teve origem em uma disputa política em 2021, quando começou a gestão da ex-prefeita Vanda Camilo (PP).
Na semana passada, o Gecoc, com apoio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado), deflagrou a Operação Dirty Pix (‘Pix Sujo’, em inglês), a qual revelou que o esquema desviou recursos do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa para pagar vereadores da legislatura passada e o presidente da entidade, Jacob Breure.
Os promotores destacaram que o conflito entre Vanda e Jacob consistia no fato da então prefeita querer influenciar a gestão do hospital, contrariando o atual presidente. Assim, Jacob teria buscado apoio na Câmara Municipal.
A base da prefeita ficou com sete parlamentares, enquanto a oposição, que se autointitulou G8, reuniu oito vereadores. O objetivo era eleger o presidente da Casa. Porém, o bloco governista ganhou o controle da Mesa Diretora.
“Nesse cenário, aproveitando-se da alocação de R$ 5,4 milhões pelo Governo do Estado para o município de Sidrolândia, destinados ao fortalecimento da saúde pública local, o presidente do hospital, senhor Jacob Breure, articulou, por meio das empresas contratadas Farma Medical e Pharbox Distribuidora, o desvio de parte desses valores públicos para si e para vereadores, a fim de garantir apoio político à sua gestão e neutralizar resistências no âmbito do Poder Executivo”, escreveram os promotores de Justiça Bianka Machado Mendes, Adriano Lobo de Resende e Humberto Lapa Ferri.
O convênio foi assinado no ano de 2022 para a compra de um aparelho de ressonância magnética e uma autoclave industrial — máquina para esterilização de itens médicos — para o hospital. Porém, a direção pagou antes mesmo de receber os equipamentos.
Os promotores citaram reportagem do Jornal Midiamax, de agosto de 2023, que detalha ação judicial proposta pela unidade médica exigindo a entrega dos aparelhos.
Como era o pagamento de propina em Sidrolândia?
Segundo o MPMS, os pagamentos indevidos eram feitos diretamente aos vereadores ou por meio de terceiros. Cledinaldo Cotócio (PSDB); Izaqueu Diniz, o Gabriel Autocar (PSD); e Cleyton Martins receberam juntos R$ 145 mil da Farma Medical.
Já Adavilton Brandão (MDB) teria recebido R$ 20 mil por meio da conta da esposa. Três pessoas são apontadas como operadores do esquema: Júlio César Alves da Silva; a filha dele, Júlia Carla Nascimento; e a companheira de Júlio César, que não foi alvo da operação.
“Júlio Cesar Alves da Silva exerce significativa influência política, evidenciando que um mero participante secundário no esquema de redistribuição de recursos ilícitos, mas sim figura com significativa capacidade de articulação nos bastidores, tornando-se peça-chave na sustentação política da gestão hospitalar”, avaliaram os promotores.
No total, Júlio César teria recebido R$ 482,5 mil da Farma Medical e da Pharbox, que seriam do mesmo dono. O empresário também não foi alvo de busca e apreensão.
A filha dele, Júlia, fez repasses de R$ 20 mil para Enelvo Felini Júnior (PSDB), Ademir Gabardo (Republicanos) e Cristina Fiúza (MDB); R$ 10 mil para outra pessoa citada na investigação; e R$ 5 mil para Elieu Vaz (PSB).

Já a esposa de Júlio César recebeu R$ 100 mil da Pharbox e enviou R$ 70 mil para Jacob Breure.
“Observa-se, portanto, que os recursos públicos destinados ao Hospital Beneficente Dona Elmíria Silvério Barbosa foram ilicitamente apropriados e direcionados por meio de uma complexa rede de interpostas pessoas e contas de passagem, beneficiando vereadores da base aliada além do próprio presidente do hospital, Jacob Breure”, concluem Mendes, Resende e Ferri.
Esses detalhes da investigação baseiam a decisão judicial que autorizou a operação da semana passada.
Gecoc revela esquema de propina por Pix a políticos e presidente de hospital
A Operação Dirty Pix, do Gecoc/MPMS (Grupo Especial de Combate à Corrupção, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul), cumpriu 18 mandados de busca e apreensão em Sidrolândia e Manaus (AM) na última terça-feira, 18 de novembro.
A investigação identificou o desvio de R$ 5,4 milhões em recursos públicos destinados ao Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa. O valor foi repassado pelo Governo do Estado à Prefeitura de Sidrolândia para a compra de um aparelho de ressonância magnética e uma autoclave hospitalar.
Porém, parte dessa verba foi desviada pela direção do hospital e pela empresa fornecedora, a Pharbox Distribuidora Farmacêutica de Medicamentos (CNPJ 20.820.379/0001-93). A empresa ainda teria pago vantagens indevidas a vereadores.
Os pagamentos eram feitos por meio de transferências Pix diretamente, ou por meio de terceiros, aos parlamentares e ao presidente do hospital, Jacob Breure.
Foram alvos da operação:
- Cristina Fiúza (MDB), vice-prefeita de Sidrolândia;
- Enelvo Felini Júnior, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente;
- Izaqueu Diniz, o Gabriel Autocar (PSD), vereador;
- Cledinaldo Cotócio (PSDB), vereador;
- Adavilton Brandão (MDB), vereador;
- Jacob Meeuwis Breure, presidente do Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa;
- Elieu Vaz (PSB), ex-vereador;
- José Ademir Gabardo (Republicanos), ex-vereador;
- Júlia Carla Nascimento;
- Júlio César Alves da Silva;
- Comercial Gabardo (CNPJ 08.217.980/0001-90);
- Gabriel Auto Car (CNPJ 19.409.298/0001-16);
- Farma Medical Distribuidora de Medicamentos e Correlatos (CNPJ 40.273.753/0001-95);
- Pharbox Distribuidora Farmacêutica de Medicamentos (CNPJ 20.820.379/0001-93).
“Dirty Pix”, termo que dá nome à operação, traduz-se da língua inglesa como “Pix sujo”, e faz alusão à natureza ilícita das transferências financeiras utilizadas para viabilizar o esquema.
O advogado de Jacob Breure, Wellison Muchiutti, negou que ele fazia parte do esquema de propina via Pix. “Não houve Pix na conta. Essa parte da investigação de que a empresa estava pagando vereador não tivemos”, comentou.
Em nota, a Pharbox garantiu ter entregue os dois equipamentos médicos comprados pelo hospital em setembro de 2023.
A empresa alega ainda não ser responsável “pelo que terceiros fazem ou eventualmente fizeram à época, com seus recursos advindos da comissão comercial” e que nenhum pagamento da empresa e da diretoria foi feito “a quaisquer dirigentes do referido hospital, tampouco para quaisquer políticos, pessoas citadas, às quais sequer são do nosso conhecimento”.
