O início do ano costuma ser um período decisivo para quem vive do trabalho informal ou atua como microempreendedor. Da necessidade de regularização à busca por novas oportunidades de renda, janeiro concentra movimentos importantes tanto no empreendedorismo quanto no mercado de trabalho formal de Mato Grosso do Sul.
Até janeiro de 2026, o Estado registrou 168.459 MEIs (microempreendedores individuais) ativos, sendo que 51.742 foram abertos somente ao longo de 2025. Carlos Henrique Oliveira, analista-técnico da instituição, explica que o mês de janeiro é atípico e concentra a maior procura do ano por regularização.
“Esse movimento acontece, principalmente, devido aos prazos para regularizar pendências e evitar notificações da Receita Federal ou o desenquadramento do Simples Nacional. Muitos empreendedores deixam para buscar orientação nesse período”, explica.
Novas profissões ganham força
Além da regularização, o Sebrae também observa um crescimento na procura por formalização de atividades que surgem como complemento de renda, especialmente após as festas de fim de ano. Embora setores tradicionais, como construção civil, elétrica, beleza e alimentação, sigam entre os mais procurados, a abertura de MEIs para atuação como entregador de malotes vem ganhando espaço de forma significativa.
“Mesmo com poucos dias de janeiro, já percebemos uma movimentação interessante, inclusive superior à do mesmo período do ano passado. A principal novidade é o crescimento da procura pelo MEI na categoria de entregador de malotes, impulsionada pelo avanço do comércio eletrônico e da demanda por logística.”
Os dados do Sebrae mostram que a maior parte dos MEIs do Estado atuam no setor de serviços, que concentra 52,8% dos registros. Em seguida, aparecem o comércio (26,1%), a construção civil (11,1%), a indústria (8,9%) e a agropecuária (1,1%).
Apesar do crescimento do empreendedorismo, os desafios financeiros seguem presentes. Segundo o Sebrae, muitos microempreendedores chegam ao início do ano com dificuldades relacionadas à falta de capital de giro, endividamento e problemas de gestão.
“A inadimplência acaba limitando o acesso ao crédito e compromete o planejamento e a expansão do negócio. Sem controle de caixa e formação de preços adequada, o empreendedor entra em um ciclo difícil de romper”, afirma Carlos Henrique.
Paralelamente ao avanço do empreendedorismo e da informalidade, o mercado de trabalho formal também registra aquecimento no mês de janeiro. Segundo João Henrique Lima Bezerra, diretor-presidente da Funsat, há aumento na procura por vagas e por realocação profissional logo nos primeiros dias do ano.
Procura pelo trabalho formal cresce em janeiro
“Dezembro é um mês em que a busca por vagas diminui, por conta das festividades. Em janeiro, esse movimento se inverte. Mesmo estando apenas no terceiro dia útil do ano, já observamos crescimento na demanda por oportunidades de trabalho”, afirma.
Em Campo Grande, o comércio lidera a oferta de vagas formais, impulsionado pela sazonalidade e pela alta rotatividade do setor. João explica que a Funsat atua como uma ponte entre trabalhadores e empresas, oferecendo vagas e promovendo cursos gratuitos de qualificação, alinhados às demandas do mercado.
“Existe uma questão cultural, de carga horária e também de sazonalidade, mas o comércio é um setor que não reduz drasticamente o fluxo de contratações, porque as pessoas precisam consumir e se alimentar”, explica João Henrique.
Apesar da oferta, o preenchimento das vagas ainda enfrenta entraves. De acordo com Denize Morais, diretora de Vagas e Emprego da Funsat, o principal desafio está no alinhamento entre o perfil dos candidatos e as exigências das empresas.
“Embora existam vagas disponíveis, o maior desafio é compatibilizar o perfil cadastrado, as exigências das empresas e as expectativas do trabalhador. Por isso, é fundamental manter o cadastro bem preenchido e buscar orientação profissional”, destaca.
Outro fator determinante para a inserção no mercado formal é a qualificação profissional. “Nós entendemos que a qualificação é fundamental, tanto para quem busca o primeiro emprego quanto para quem precisa retornar ao mercado de trabalho. Por isso, oferecemos cursos direcionados às áreas com maior número de vagas abertas”, reforça João Henrique.
Para definir as capacitações ofertadas, a Funsat realiza um diagnóstico contínuo do mercado de trabalho local. Atualmente, áreas ligadas à tecnologia estão em evidência. Por isso, a Fundação tem focado em capacitações gratuitas em informática e inteligência artificial.
Riscos da informalidade
Para quem vive da informalidade, a vulnerabilidade financeira é um dos principais riscos. A economista Aline Moreira alerta que depender exclusivamente de “bicos” ou do comércio ambulante, sem planejamento, é como “viver em uma corda bamba”.
“Não ter renda fixa, planejamento e reserva financeira deixa o trabalhador extremamente exposto. O ideal é separar um valor sempre que receber, mesmo que seja pequeno, para formar uma reserva de emergência”, orienta.
Caminhos para a formalização
A economista Aline Moreira destaca que a formalização como microempreendedor individual é um passo estratégico para quem deseja manter a flexibilidade do trabalho autônomo, mas com mais segurança e perspectivas de crescimento.
“Planejar, compreender quanto se ganha e buscar a formalização possibilita o acesso a direitos e cria oportunidades de expansão do negócio. Esse MEI pode, no futuro, se transformar em uma empresa maior. Além disso, cursos e capacitações são fundamentais para ampliar a renda e as oportunidades”, avalia.
Nesse contexto, Carlos Henrique Oliveira reforça o papel do Sebrae no apoio à gestão do microempreendedor. Segundo ele, a instituição atua em todas as etapas do negócio, desde a abertura até o desenvolvimento da empresa, oferecendo orientações sobre controle financeiro, formação de preços, gestão de estoque, negociação com fornecedores e acesso ao crédito.
“A ausência dessas práticas, muitas vezes, resulta em inadimplência e na necessidade de regularização”, destaca.
Em 2025, o Estado registrou a abertura de 13.143 novas empresas, conforme dados da Jucems (Junta Comercial de MS). Desse total, 9.923 pertencem ao setor de Serviços, representando 75,5% das aberturas no período. O Comércio aparece em seguida, com 2.751 novos negócios (20,9%), enquanto a Indústria respondeu por 469 registros, o equivalente a 3,6%.
Volta à CLT
Em paralelo, João Henrique observa que também há um movimento de trabalhadores que atuam na informalidade e buscam retornar ao mercado formal, a famosa CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Segundo ele, muitos já conhecem as diferenças entre os dois modelos, mas procuram maior segurança e estabilidade.
“A Funsat trabalha exclusivamente com vagas formais, todas com registro e garantias trabalhistas. Quando a pessoa procura sair da informalidade, nossa equipe oferece orientação completa e faz a intermediação com as empresas”, conclui o diretor-presidente da Funsat.
No ano passado, a intermediação de mão de obra da Funsat resultou em 1.292 colocações no mercado de trabalho até 5 de dezembro — 3,4% acima da meta estabelecida para 2025.
