Sul-mato-grossenses sofrem com dor nas articulações e mãos dormentes após contraírem a doença

“Nunca imaginei que existisse uma doença tão terrível”, diz a professora aposentada Margarida Barbosa da Silva, de 72 anos, moradora de Terenos. Ela foi infectada com chikungunya em fevereiro de 2025, mas sofre com as dores até hoje. Segundo o Ministério da Saúde, mais de 50% das pessoas que contraem a doença seguem com os sintomas por anos.

Após ser picada pelo mosquito Aedes aegypti, Margarida começou a sentir dor no polegar. “Parecia que eu tinha machucado o dedo”, diz a aposentada e proprietária de viveiro de plantas na cidade, que fica a 31 quilômetros de Campo Grande. Em seguida, a dor passou para os outros dedos, as mãos, os pés e os ombros. Depois, veio a febre de 40°C. Em 2 meses, ela não conseguia mais sair da cama. Doía o corpo inteiro.

Não conseguia vestir roupa, tomar banho sozinha, nem me alimentar. Eu não suportava a dor na mão. Eu ficava paralisada, travada. Quando eu acordava, era uma dor tão terrível, que não conseguia me mexer”, relata Margarida da Silva. Ela fazia exercícios para, aos poucos, retornar o movimento das articulações, mas ficou sem conseguir sair da cama por quatro meses.

Um ano e dois meses depois, a professora aposentada ainda sente dores no ombro, que está inchado, assim como a mão de direita. As articulações dos pés também doem com frequência. A chikungunya ainda dificulta a vida de Margarida e a obriga a evitar serviços que exigem força nas articulações.

“Ainda sofro, fiquei bem limitada. As mãos ainda doem, eu não posso forçar muito. Lido com plantas, mas não posso mexer com poda porque já piora, volta a doer muito”, explica a mulher de 72 anos. Ela já passou por médicos em Terenos e Campo Grande, tomou anti-inflamatórios, analgésicos e remédios naturais, mas a melhora é lenta e focada no alívio da dor. Segundo ela, o que mais ajuda é o pilates. “Faz voltar a mobilidade.”

‘Não consigo descascar uma batata’

Moradora de Jardim, Lucilene Miranda, de 69 anos, é outra que sofre com as consequências da chikungunya. Ela foi infectada no início de janeiro de 2026 e perdeu a força das mãos. Tudo começou com febre de 40°C e muita dor, sintomas típicos da doença. “Parecia que um trator tinha passado por cima de mim”, relata Lucilene.

A doença evoluiu rapidamente. Quatro dias depois, começaram os sintomas mais incapacitantes da chikungunya. “Eu acordei com a mão doída e adormecida. Sabe quando você dorme em cima do braço e a mão fica a ‘boba’? Eu estou com a ‘mão boba’ há mais de três meses”, explica a aposentada.

Desde então, ela perdeu a força das mãos. Não consegue segurar com firmeza nenhum instrumento. “Não descasco nem uma batata. É muito ruim”, lamenta Lucilena Miranda. Quinze dias após os primeiros sintomas, a dor se intensificou e as mãos começaram a descascar. “Parecia que tinha tomado sol, descascou inteirinha.”

O que Lucilene chama de ‘mão boba’ é um sintoma da síndrome do túnel do carpo, causada pela compressão do nervo mediano no punho, segundo o Ministério da Saúde. Isso causa dormência e formigamento nas regiões controladas por este nervo, como o punho e a mão. Os efeitos são sentidos diariamente. “Até hoje eu tenho dificuldade em me vestir, não consigo lavar direito os pés”, relata Lucilene Miranda.

Após descamar, as pontas dos dedos de Lucilene ficaram enrugadas. (Foto: Leitor Midiamax)

‘É insuportável’

Lucilene Miranda tomou corticoide — medicamento usado para tratar inflamações e artrites — por um tempo e a dor passou, mas voltou após o fim do uso do remédio. Corticoides são conhecidos pelo uso controlado, com possibilidade de efeitos colaterais. Por isso, a aposentada, sob orientações médicas, preferiu não tomar o remédio por tempo prolongado. “Voltou toda a dor de novo”, explica.

Mais de quatro meses após o início dos sintomas, as articulações doem menos, mas a dormência segue intensa. Se Lucilene anda muito, os joelhos também doem, principalmente quando ela caminha. E, recentemente, mais um sintoma inesperado: os pés começaram a descascar. Também chamado de descamação, esse sintoma é comum após o surgimento das manchas vermelhas na pele.

“No começo, eu acordava de madrugada urrando de dor. É insuportável. E agora eu estou muito triste, porque ouvi dizer que demora até 2 anos para melhorar. Fiz fisioterapia, e entendi que depende de organismo para organismo, mas sei que ainda vou sofrer com isso”, desabafa.

Se, no início dos sintomas, a dor intensa era o pior sintoma, agora a dormência impede os trabalhos do dia a dia. “Eu fazia o almoço, fazia tudo, mas não consigo mais. Já três meses que eu estou sem fazer nada, eu não aguento mais ficar assim”, conclui a mulher de 69 anos.

Doença surpreende

As duas mulheres de Mato Grosso do Sul ouvidas pela reportagem são exemplo das sequelas causadas pela chikungunya. Em comum, elas têm o fato de terem sido pegas de surpresa pela evolução da doença. Quase ninguém sabe que, além de dengue grave, o Aedes aegypti pode causar sequelas graves com chikungunya.

“Eu achei que seria igual à dengue, porque eu já tive uma vez, há uns 10 anos, e em três dias já estava boa. Mas não melhorava”, relata Lucilene.

“Nunca imaginei que tivesse uma doença tão terrível. Nunca passou pela minha cabeça. Eu ouvia falar ou lia alguma coisa sobre chikungunya, mas eu achava até engraçado o nome… Eu não não tinha ideia que fosse uma doença tão terrível assim”, conclui Margarida Barbosa da Silva.

Chikungunya mata e causa sequelas

Segundo o Ministério da Saúde, o vírus chikungunya também pode causar doença neuroinvasiva, que é caracterizada por agravos neurológicos, tais como: encefalite, mielite, meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré, síndrome cerebelar, paresias, paralisias e neuropatias. Óbitos são recorrentes nos grupos de risco, que são pessoas em extremos de idade, como bebês e idosos.

Sintomas:
  • Febre;
  • Dores musculares;
  • Dor de cabeça;
  • Dores intensas nas articulações;
  • Manchas vermelhas pelo corpo;
  • Dor atrás dos olhos;
  • Dor nas costas;
  • Conjuntivite não purulenta;
  • Náuseas e vômitos;
  • Inchaço nas articulações;
  • Coceira na pele, que pode ser generalizada ou localizada nas palmas das mãos e solas dos pés;
  • Diarreia e/ou dor abdominal;
  • Dor de garganta;
  • Calafrios.

A doença começa na fase aguda, que dura de 5 a 14 dias, e é caracterizada pela febre e pelas dores nas articulações. De 15 dias a três meses, ocorre a fase pós-aguda. Se os sintomas persistirem, o Ministério da Saúde considera que a fase crônica já está instalada. Mais da metade dos acometidos por chikungunya sofre com a dor nas articulações, que pode persistir por anos.

Além disso, é possível o desenvolvimento de manifestações no sistema nervoso, cardiovascular, pele, rins e outros órgãos. Confira no quadro abaixo:

(Reprodução, Ministério da Saúde)

Pressão no sistema de saúde

“Imagine a pessoa ficar com dificuldade, incapacitada. Isso remete às questões do cotidiano, como o trabalho, o cuidado com a família. Traz um prejuízo social muito elevado”, alerta a presidente da Sociedade Sul-Mato-Grossense de Infectologia, a médica Andyane Tetila.

Segundo a especialista, chikungunya tem uma particularidade: é difícil ter a resolução dos casos numa consulta só. Geralmente, é necessário fazer reavaliação médica para acompanhar a evolução da doença. Com mais da metade dos pacientes com sequelas duradouras, o problema deve se estender para os próximos anos.

“Então, nós sabemos que isso vai durar, porque são pacientes que vão precisar de acompanhamento por muito tempo. A gente se preocupa nesse quesito”, diz Andyane Tetila. No domingo (5), Dourados tinha 35 pessoas internadas pela doença.

Chikungunya em MS

Chikungunya é uma arbovirose transmitida pela picada de fêmeas infectadas do Aedes aegypti. Cidades de Mato Grosso do Sul enfrentam epidemia da doença e o Estado já registrou sete mortes, além de 3.665 casos prováveis. Outras duas mortes são investigadas em Dourados.

epicentro no Estado é a cidade de Dourados, a 225 quilômetros de Campo Grande. O município concentra cinco mortes e 1.365 casos confirmados, recebeu apoio da Força Nacional do SUS, teve reconhecimento de emergência sanitária e mais de R$ 3,1 milhões de recursos federais para enfrentamento da epidemia.

Os óbitos registrados por chikungunya em Mato Grosso do Sul são de dois bebês, de um mês e três meses; além de cinco idosos: de 83, 73, 72, 69 e 60 anos. Segundo a SES (Secretaria Estadual de Saúde), três dos idosos possuíam comorbidades, como pressão alta, diabetes e obesidade.

Assim, todas as pessoas que morreram de chikungunya no Estado estavam no principal grupo de risco: extremos de idade. “Nos grupos de risco, a probabilidade de morte é bem elevada. Na população em geral, é muito baixa, é um mínimo que interna e evolui com gravidade”, explica a infectologista Andyane Tetila.

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