O novo secretário de Saúde de Campo Grande, Marcelo Vilela, retornou à pasta identificando gargalos críticos na rede municipal que vão além do subfinanciamento. Ele explica como deve encarar as duas reclamações mais recorrentes dos usuários do SUS em Campo Grande.

O gestor afirmou que o abastecimento de medicamentos na Capital gira em torno de 80% a 85%, mas o remédio, muitas vezes, não chega ao paciente porque o profissional, na ponta, desconhece o estoque.

“Eu acho que é falta de comunicação. É uma secretaria muito grande, os servidores estavam acostumados a faltar. Os próprios médicos, enfermeiros, às vezes eles não estão sabendo que [os remédios] estão lá”, explicou Vilela. 

Para sanar o problema, ele determinou a criação de um informativo técnico para atualizar as unidades sobre os itens disponíveis. “Essa informação da população vem do profissional, do enfermeiro. Ele fala: ‘Ah, esse aí não tem’. E tem, às vezes já chegou na unidade.”

Burocracia como entrave

Vilela criticou o modelo de licitação pública, ilustrando a forma idêntica de compra de itens de escritório e insumos vitais. 

Segundo ele, o processo para chegar a uma ata de preço ou empenho é “extremamente difícil” e suscetível a comportamentos predatórios de empresas que vencem o certame e depois travam a entrega pedindo reajustes.

“Para comprar uma cadeira, uma caneta, uma televisão, é a mesma coisa de comprar um antibiótico. Só que qual é a importância para a sociedade de uma cadeira e de um antibiótico? Se você não dá um antibiótico, pode ter problema para um monte de gente, até morte. E não é dado esse tratamento para a saúde”, pontuou o secretário.

O gestor demonstrou preocupação com prefeituras que recorrem a compras de urgência por inexigibilidade, alertando que o Tribunal de Contas cobrará justificativas técnicas no futuro. Por isso, defende o cumprimento do processo ordinário, mas com maior agilidade e acompanhamento direto do gabinete.

Questionado sobre o papel do planejamento para contornar esses desafios, que fogem do escopo da administração municipal, Vilela afirmou que a ausência de diálogo entre a chefia da pasta e os responsáveis por comprar e gerenciar os estoques surge como outro obstáculo no manejo do material farmacológico.

“Aqui, dentro da Secretaria de Saúde, existem as áreas técnicas que fazem isso. O problema, às vezes, é que não existia muita comunicação dos secretários, dos subintendentes, nas áreas. E aí o negócio, o processo, engasga e não é passado pro secretário. Mas, na verdade, o alinhamento, é isso que eu tô fazendo agora”, afirmou.

‘Força-tarefa’ contra furos em escalas

Outro ponto sensível abordado pelo secretário é a ausência de profissionais nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). Vilela revelou que o problema central reside nos “plantões extras”, utilizados por médicos e enfermeiros para dobrar a renda, mas que carecem de compromisso de comparecimento.

“Existe um comportamento muito ruim aqui, que é um dar atestado para o outro. Eu já falei na semana passada com o RH, então, a gente vai fazer uma força-tarefa; eu já pedi pra ser justo, entendeu? Lógico que vai ter pessoas doentes, vai ter… Mas, se a pessoa pegou o plantão extra, é responsabilidade, ela não pode faltar; porque, senão, desfalca lá, e você não tem, assim, de última hora, [alguém para substituir]”, disse.

O secretário planeja realizar uma auditoria rigorosa sobre os atestados apresentados pelas equipes de saúde e acionar os comitês de ética e conselhos profissionais se necessário. Ele confirmou que penalizações serão atribuídas aos furões de escala sem a devida justificativa.

“Não pode: ‘Ah, hoje eu não quero trabalhar. Não, hoje eu tenho que viajar’. Porque o plantão extra não é compromisso? É para ser compromisso, mas a pessoa não tem o compromisso de comparecer. Esse é um dos grandes gargalos”, desabafou.

A expectativa do secretário é de que a saúde municipal apresente uma melhora gradual em um cronograma de seis meses a um ano.

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