
Entre a menopausa precoce e a vontade de não ser definida pela doença, influenciadora compartilha rotina e quebra padrões sobre o que é ser uma paciente paliativa
Comunicadora por excelência, Eliza Montes, de 39 anos, passa distante de qualquer estereótipo de quem convive com câncer de mama metastático há quase cinco anos. Com uma história que transmite força e vontade de viver, seu exemplo não fica restrito às datas marcadas por campanhas de combate à prevenção da doença, como o Outubro Rosa e outras celebrações, embora reconheça a importância de tais iniciativas. Com sorriso e coração abertos para falar sobre sua trajetória, hoje, ela usa a comunicação — que aprendeu ao longo dos 16 anos que atuou como locutora de rádio — e as redes sociais para encorajar outras mulheres que passam pela mesma situação.
Recebendo a equipe de reportagem no apartamento em que vive com o marido, Eliza contou que até a descoberta da doença, em meados de 2021, tinha uma vida comum, mas o diagnóstico tardio e a metástase no fígado e na axila transformaram seu modo de ver a vida. Apesar disso, não se deixou confundir com a doença, especialmente durante procedimentos nos quais é muito fácil perder a noção de identidade e se deixar ser definida pela doença, algo que a Eliza sempre tentou evitar, e vem conseguindo com êxito.
Entre diversas sessões de quimio e imunoterapia, e a retirada das trompas e dos ovários para impedir que hormônios como a progesterona e estrogênio sejam liberados no organismo e contribuam com o crescimento das células cancerígenas, Eliza se manteve firme no propósito de viver e fazer com que o câncer fosse apenas uma parte da sua vida e não ela por inteiro, mesmo quando o tratamento a deixava com as energias esgotadas.
“Uma pessoa que recebeu um diagnóstico de câncer nunca mais vai ser a mesma. Só quem passa sabe exatamente do que eu tô falando, mas ainda existe uma vida que a gente quer viver. Eu não sou o câncer e ele não vai me definir”, destaca, contando que, mesmo passando pelo tratamento, conseguiu realizar o sonho de conhecer a Europa.
Longe de romantizar a doença e todas as mudanças que ela trouxe para sua vida, um dos momentos que marcaram uma virada em sua jornada foi a retirada de parte do sistema reprodutor, que causou uma menopausa precoce, exigindo adaptações por parte de Eliza. À essa altura, havia quatro tumores em seu fígado, dos quais restou apenas um, que está estável e, hoje, não apresenta risco, embora o tratamento para o controle da doença seja algo para o resto da vida.
“Eu deitei jovem e acordei uma senhora, com falta de libido, ressecamento íntimo, fogachos típicos da menopausa, além das dores articulares, porque não tem mais hormônio para proteger os ossos. Hoje eu uso uma medicação que pessoas com fibromialgia usam pelo tanto de dor que eu sinto”, contou.
Paciente do Hospital do Câncer Alfredo Abrão, Eliza defende que as pacientes tenham acompanhamento psicológico e que se fale mais sobre as consequências trazidas pelo câncer, especialmente quando se envolve a retirada de ovários e trompas.. Além disso, a comunicadora reforça a importância de cuidar da saúde mental durante todo o tratamento.
“O impacto emocional vai muito de como você está lidando com a vida de forma geral. No meu caso, eu estava trabalhando, tinha terminado a faculdade de Moda e estava com projetos novos, estava bem resolvida comigo, mas nem pra todo mundo é assim, porque o diagnóstico de câncer impacta muito, a gente acha que vai morrer, e o câncer de mama é um dos que mais mata, mas também tem uma taxa altíssima de cura quando descoberto precocemente, mas quando eu descobri já estava em metástase”, lembra, destacando a importância do acompanhamento e realização anual de exames preventivos.
Entre idas e vindas do hospital, o tratamento de imunoterapia e a prevenção para que o tumor resistente em seu fígado não aumente ou se espalhe para outros pontos do corpo, Eliza, que se define como oncoinfluenciadora e acumula mais de 13 mil seguidores apenas no Instagram, mostra sua rotina no Instagram, com a volta progressiva ao trabalho, no qual é locutora de merchandising em um canal de TV local, a rotina de treinos para manter o corpo forte, looks do dia e suas andanças e experiências por Campo Grande.
“Eu sempre comuniquei para o público feminino, inclusive tinha um programa na rádio voltado para as mulheres. Então, vi no Instagram uma oportunidade de continuar comunicando, mostrando para as mulheres que ninguém precisa ser definida pela doença, que é possível continuar vivendo. Eu também falo sobre o tratamento e ensino como lidar com pacientes com câncer, porque, muitas vezes, as pessoas não sabem o que fazer quando alguém próximo recebe um diagnóstico”.
A rede social também é um espaço aberto e seguro para que outras mulheres sejam ouvidas e aprendam a lidar com os momentos de fragilidade que a doença traz.
“Eu acho que deveria ter mais essa escuta e essa conversa com as mulheres que recebem diagnóstico de câncer. Por exemplo, podemos falar sobre relação sexual após ou durante o tratamento, desmistificar isso, porque são coisas que quase não são faladas”, relembrando que, à época, não conhecia as consequências de entrar numa menopausa precoce.
Essa não é uma luta que se perde
Estremecendo ainda mais os padrões esperados para uma paciente paliativa, ou seja, alguém que terá de tratar uma doença para o resto da vida sem chances de cura, Eliza ainda critica a postura comum adotadas por algumas pessoas ao ver alguém que vive com a doença como “guerreiros” ou “lutadores”, que quando falecem “perdem a batalha contra o câncer”.
A oncoinlfuenciadora acredita que nenhuma batalha é perdida, já que o paciente nunca deixou, mesmo no leito de morte, de lutar contra a doença, que muitas vezes faz com que a pessoa perda todas as energias, oportunidades de vida e, acima de tudo, pessoas, que podem não saber lidar ou entender como é passar por um processo como o tratamento de câncer, que pode ser algo para a vida todo, como no seu caso.
“Sempre que alguém, seja famoso ou não, morre, as pessoas falam “ela perdeu a batalha contra o câncer. Será que perdeu mesmo? Acho que não. A pessoa aceitou o tratamento, fez tudo o que precisava, mas infelizmente morreu. Ela não perdeu a batalha”, pontua.
