Junção de inverno seco e ventos fortes propagam chamas; Pantanal registra aumento de incêndios

Desde a última quinta-feira (16), o Pantanal passa por dias de longas queimadas vindas de um incêndio florestal. O fogo, que teve início na região do Forte Coimbra, em Corumbá, atravessou a fronteira e chegou em uma área de preservação na Bolívia, local onde já queimou 3,7 mil hectares, segundo informações do IHP (Instituto do Homem Pantaneiro). As proporções se devem, em parte, pelos ventos fortes registrados nos últimos dias.

O maior estrago concentra-se no lado boliviano, no município de Puerto Quijarro, mas, embora sem registros de casos graves na região do Pantanal brasileiro, o Corpo de Bombeiros também atua em Corumbá e faz monitoramento dos focos de incêndio. Na Bolívia, a área atingida pelo fogo concentra-se no Manejo Integrado Otuquis, onde atuam a Armada Boliviana e o Sernap (Servicio Nacional de Áreas Protegidas). Foram mais de quatro equipes envolvidas desde a semana passada.

Mas essa situação não é isolada. “No Pantanal, a área queimada passou de 6.762 hectares em 2025 para 58.878 hectares em 2026, no mesmo período comparativo, com aumento dos focos de calor de 69 para 149. Isso evidencia que, mesmo quando o número total de ocorrências não aumenta, as condições ambientais e meteorológicas podem favorecer incêndios de maior extensão espacial”, expõe o meteorologista Diego Silva.

Ventos e tempo seco

Ainda de acordo com o IHP, um dia após o início do incêndio, na sexta-feira, a região registrou fortes ventos, com marcações de 40 km/h, assim como no sábado. Os ventos estavam no sentido norte-sul, o que ajudou a propagar. Os dados foram apurados juntamente com a Defesa Civil de Corumbá e sistemas de monitoramento.

Segundo o meteorologista, os ventos têm influência direta na propagação dos incêndios em vegetação. Eles não iniciam o fogo, mas quando há incêndio ativo, podem acelerar o avanço das chamas, pois aumentam a oxigenação da combustão.

“Em áreas de mata, pastagem, capim seco ou vegetação nativa, esse efeito é mais preocupante porque o material combustível fino – como folhas, galhos pequenos e gramíneas secas – responde rapidamente à redução da umidade e à ação do vento. Com rajadas mais intensas, um foco pequeno pode ganhar proporção em pouco tempo, dificultando o controle pelas equipes de combate”, ressalta o profissional.

O tempo, característica do inverno sul-mato-grossense, é um dos principais fatores meteorológicos para o aumento de incêndios em vegetação. “Quando a umidade relativa do ar permanece baixa, a vegetação perde umidade, o solo resseca e o material combustível fica mais disponível para queima. A combinação de baixa umidade, temperaturas elevadas, ausência de chuva significativa e vento favorece tanto o agravamento quanto a rápida propagação dos focos”, explica Diego.

Panorâma geral

O alerta serve para quase todo o Estado. Campo Grande registrou diversos incêndios apenas no dia de ontem. As ocorrências, em diferentes pontos da Capital, mobilizaram o Corpo de Bombeiros Militar.

Com o baixo registro de chuvas neste período do ano, a CESP (Companhia Energética de São Paulo) iniciou nesta segunda-feira (20) uma redução gradual da vazão da Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta, localizada na divisa entre os estados de Mato Grosso do Sul e São Paulo, para assegurar a manutenção dos níveis de armazenamento dos reservatórios da região.

Foto: Roberta Martins

A iniciativa faz parte da estratégia do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) para preservação dos reservatórios de todo o país diante do cenário de instabilidade climática, com previsão de chuvas abaixo da média em algumas regiões do país.

Diego Silva indica redobrar a atenção para os próximos dias. “Na terça-feira predomina o cenário de tempo quente e seco, baixa umidade relativa do ar e ventos do quadrante norte, condição que favorece a propagação rápida de focos de incêndio, especialmente em áreas com vegetação seca”, diz.

A partir de amanhã, Mato Grosso do Sul recebe uma frente fria que deve aumentar a nebulosidade e a probabilidade de chuva em parte do estado, principalmente nas regiões central, sul, oeste, sudoeste e sudeste.

“Durante essa mudança no tempo, também podem ocorrer rajadas de vento e mudança na direção dos ventos, o que pode dificultar o controle de focos já existentes, pois a frente de propagação do fogo pode se alterar rapidamente. Nas áreas onde a chuva ocorrer com volumes mais significativos, o risco tende a diminuir temporariamente”, pontua.

Em caso de incêndio em vegetação sem vítimas, deve-se acionar o Corpo de Bombeiros Militar através do número 193. Especialmente em áreas rurais ou durante períodos de estiagem, a Defesa Civil também atende pelo 199.

Por Maria Gabriela Arcanjo

administrator

Related Articles

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *