Os casos de pessoas que procuram atendimento por problemas relacionados ao jogo patológico cresceram de forma significativa na rede pública de saúde mental de Campo Grande. Dados da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) mostram que os registros nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) mais que triplicaram em um ano.

Em 2024, foram contabilizados 50 atendimentos médicos relacionados ao transtorno. No ano seguinte, o número subiu para 162 casos. Já no primeiro semestre de 2026, a rede municipal registrou 105 novos atendimentos.

O aumento aparece em meio à expansão das plataformas de apostas esportivas, que passaram a fazer parte da rotina de muitos brasileiros com acesso facilitado por aplicativos e sites. Para especialistas, o problema não está no ato de apostar ocasionalmente, mas na perda de controle sobre o comportamento.

O psiquiatra Carlos Renato Periotto, docente do curso de pós-graduação em Psiquiatria da Afya Educação Médica Campo Grande, explica que a prática só passa a ser considerada um transtorno quando começa a causar prejuízos na vida da pessoa. “A maioria das pessoas que aposta faz isso como uma forma de entretenimento, da mesma maneira que alguém vai ao cinema ou jogar videogame. Apostar, por si só, não é uma doença”, afirma.

Segundo o médico, o Transtorno do Jogo, conhecido também como Gambling Disorder, é caracterizado principalmente pela dificuldade de interromper as apostas mesmo quando elas já provocam consequências negativas. “O ponto de virada não é o valor apostado nem a frequência das apostas. O que caracteriza a doença é a perda de controle, a persistência do comportamento apesar das consequências negativas e o sofrimento ou prejuízo significativo que isso causa na vida da pessoa”, explica.

Entre os sinais que podem indicar o desenvolvimento do transtorno estão a necessidade de apostar valores cada vez maiores para obter a mesma sensação, tentativas frustradas de parar, preocupação constante com o jogo, uso de novas apostas para recuperar dinheiro perdido e mentiras sobre valores gastos. “O problema não é apostar; o problema é quando a pessoa deixa de controlar a aposta e passa a ser controlada por ela”, afirma Periotto.

Onde procurar ajuda?

Na rede municipal, pessoas que identificam dificuldades relacionadas às apostas podem procurar inicialmente uma USF (Unidade de Saúde da Família). Casos avaliados como mais complexos podem ser encaminhados aos CAPS, que contam com equipes multiprofissionais.

Entre os sinais que indicam a necessidade de buscar ajuda estão dificuldade para interromper as apostas, endividamento frequente, isolamento social, queda no rendimento profissional ou escolar, além de sentimentos como ansiedade, culpa e vergonha.

Outra alternativa para quem deseja interromper o acesso às plataformas é a Plataforma Nacional de Autoexclusão do Governo Federal, que permite bloquear o CPF em casas de apostas autorizadas. O pedido pode ser feito por meio de uma conta Gov.br nos níveis Prata ou Ouro, com o bloqueio sendo efetivado em até 72 horas.

Também existem medidas complementares, como bloqueadores de sites e aplicativos, restrição de downloads de plataformas de apostas e filtros de navegação em celulares e computadores.

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