
Alta no endividamento do consumidor aperta caixa e desafia varejistas de Campo Grande
O comércio de Mato Grosso do Sul enfrenta um dilema diário no balcão: os lojistas precisam continuar vendendo para gerar caixa e pagar seus compromissos, mas convivem com o risco iminente de calotes devido à alta da inadimplência no Estado. O varejo local tenta equilibrar a necessidade urgente de escoar o estoque com o perigo real de asfixia financeira por falta de pagamento. Em julho de 2026, dados da CNDL e do SPC Brasil revelaram que a região Centro-Oeste atingiu 6,41 milhões de negativados, o que representa 48,39% da população adulta local. Esse índice supera a média nacional de 44,75%.
A presidente da FCDL-MS (Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Mato Grosso do Sul), Inês Santiago, aponta o impacto dos altos índices de inadimplência no comércio. “A inadimplência retira do lojista o oxigênio para tocar o negócio no dia a dia. Quando o consumidor deixa de pagar, a loja perde a capacidade de repor estoque, de pagar fornecedores em dia e de honrar compromissos fixos, como aluguel e folha de pagamento”. Segundo a presidente, o efeito aparece primeiro no pequeno comerciante. “O ponto de ruptura chega quando a empresa passa a usar capital de giro para cobrir despesas correntes, em vez de investir em crescimento. A partir daí, o fechamento de portas deixa de ser hipótese distante e se torna uma conta de tempo”.
O dilema entre faturar e receber
Nesse cenário, equilibrar as contas exige jogo de cintura, especialmente para as lojas que dependem do crediário próprio. Para o gerente regional da Sofa in Box, Ronildo Silva, o endividamento afeta a rotina das lojas. “O consumidor endividado acaba refletindo diretamente no nosso dia a dia, nossas vendas, principalmente as lojas como a nossa que têm o crediário próprio. A gente fica com um leque menor de clientes disponível a vir na loja, comprar ou fazer um investimento em alguns bens que, principalmente quando se fala de conforto para ele, não é a primeira necessidade”.
Para Ronildo, a venda a longo prazo cria um descompasso financeiro com os fornecedores das marcas: “O fluxo do caixa acaba comprometendo porque você geralmente vende aí em 10, 12 vezes, tem todo esse prazo para receber e o nosso fornecedor, a gente não consegue esticar em 10, 12 vezes. A gente paga à vista no máximo uma e duas vezes”. Essa realidade força o varejista a caminhar sobre uma linha estreita. “A gente não tem a opção de não vender para proteger o caixa. É uma linha tênue mesmo, porque se você não vende, você não tem caixa para pagar fornecedores, pagar colaboradores, pagar parceiros”, destaca o gerente.
O impacto diário no balcão também é sentido na Gazin. O coordenador de estoque atuante na gestão da loja, Luiz Paulo Silva, relata que o avanço da inadimplência prejudica diretamente o cumprimento das metas de vendas da marca. “Isso vem aumentando devido à inadimplência do consumidor e como consequência esse endividamento acaba diminuindo o poder de compra do cliente, onde nós não conseguimos atingir o número de clientes que nós necessitamos para atingir nossas metas?”, afirma.
A saída para proteger o caixa tem sido reforçar a análise cadastral. Consultas aos birôs de créditos e o feeling no atendimento são cruciais. “feeling na hora de conversar com o cliente, de não aumentar o endividamento dele em mais de 30% do que ele ganha. E a partir dessa ferramenta aí a gente consegue ter o equilíbrio, né, em vender e também receber”. Para ele, toda operação tem riscos, os quais tentam “amenizar através dessas consultas”. Para não travar o faturamento, a Gazin aposta em um setor de análise robusto.
“Nós temos um setor bem informado e de forma bem agressiva nas análises de crédito, onde a gente consegue filtrar os clientes com uma melhor análise de crédito, com ajuda da tecnologia, ajuda do nosso analista e também na Gazin temos o cliente próximo a nós onde a gente consegue fazer uma entrevista melhor quando estamos fazendo uma análise para liberação. Nós vivemos sim esse dilema de fazer a liberação de crédito, mas de forma consciente”.
Manter o cliente apto à recompra é o grande foco das estratégias. Como resume a presidente da FCDL-MS: “quando praticamente metade da população adulta da nossa região está negativada, isso mostra que existe uma parcela muito grande das famílias com dificuldade para organizar o orçamento. O varejo sente esse impacto diretamente”, exigindo políticas de renegociação eficientes para reaproximar as marcas de seus clientes.
Por Enzo Pereira
