
Especialista ouvido pelo O Estado, explica que mudança nas expectativas eleitorais impulsionou a venda de ações e a procura por dólares
A reação do mercado financeiro ao resultado das eleições presidenciais brasileiras provocou forte turbulência na Bolsa de Valores nesta segunda-feira (26). A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva contrariou as expectativas de parte dos investidores, que apostavam em um resultado favorável à oposição, e desencadeou uma corrida para reorganizar aplicações financeiras, com venda de ações e busca por dólares.
Segundo o economista Eugênio Pavão, o mercado financeiro, representantes do agronegócio e outros agentes econômicos consideravam elevadas as chances de vitória do candidato da direita. Na sexta-feira anterior à votação, investidores já haviam se posicionado diante dessa expectativa, vendendo dólares e comprando ações na Bolsa.
Com a confirmação de um cenário diferente do esperado, parte dos investidores mudou de estratégia para tentar limitar perdas e proteger o patrimônio. “Como a situação se inverteu, muitos passaram a vender ações de empresas e comprar dólares, como forma de inverter as perdas, com a manutenção do governo”, explicou Pavão.
O movimento contribuiu para aumentar a pressão sobre os ativos brasileiros e a moeda norte-americana. De acordo com o economista, a saída de recursos aplicados no curto prazo também reflete a procura por mercados considerados mais seguros diante das incertezas políticas e econômicas.
Pavão ressalta que a apreensão dos investidores em eleições disputadas não é novidade. Ele lembra que situações semelhantes ocorreram em outros momentos da história política brasileira, inclusive durante a disputa presidencial entre Fernando Collor e Lula, quando havia temor no mercado financeiro em relação à possibilidade de vitória petista.
Circuit breaker interrompe negociações
Diante de quedas expressivas, a Bolsa conta com um mecanismo de proteção conhecido como circuit breaker, que suspende temporariamente as negociações quando o índice de referência atinge determinados patamares de desvalorização. A medida busca conter movimentos de pânico e oferecer tempo para que os investidores reavaliem suas decisões.
Conforme Pavão, o mecanismo prevê interrupção de 30 minutos quando a queda do Ibovespa chega a 10%. Se a desvalorização atingir 15%, a paralisação é de uma hora. Em caso de queda superior a 20%, as negociações podem ser interrompidas por tempo indeterminado, conforme as regras aplicáveis ao pregão.
O economista explica que a ferramenta procura reduzir decisões precipitadas em momentos de grande instabilidade. A expressão em inglês *time is money*, ou “tempo é dinheiro”, resume a lógica de oferecer uma pausa para que o mercado assimile as informações e reavalie os riscos.
O mecanismo foi utilizado pela primeira vez em outubro de 1997, durante a crise financeira asiática, que provocou turbulências internacionais e afetou a economia brasileira. Desde então, voltou a ser acionado em episódios como a desvalorização do real, em 1999, a crise financeira mundial de 2008 e a pandemia de covid-19, em março de 2020.
Na pandemia, o circuit breaker foi acionado seis vezes somente naquele mês, em meio à forte aversão ao risco nos mercados internacionais. O episódio atual se soma a esse histórico de momentos em que a incerteza provocou movimentos abruptos nos preços dos ativos.
Dólar e agronegócio
A valorização do dólar também preocupa setores ligados ao comércio exterior. Segundo Pavão, a procura pela moeda norte-americana aumenta quando investidores retiram recursos do mercado brasileiro e buscam alternativas em outros países. Esse movimento, associado à relação entre oferta e demanda, pode pressionar o câmbio.
Para o agronegócio, a instabilidade amplia as incertezas na tomada de decisões. Embora um dólar mais alto possa favorecer receitas de exportadores que recebem em moeda estrangeira, a volatilidade dificulta o planejamento, a negociação de contratos e a definição dos melhores momentos para comprar insumos ou fechar vendas.
O economista destaca que a Bolsa brasileira reúne volumes expressivos de capital nacional e estrangeiro, o que amplia o impacto de mudanças bruscas nas expectativas. Nesse cenário, o comportamento dos investidores dependerá da evolução das condições políticas e econômicas e dos sinais que o governo der sobre a condução da economia.
MUDANÇA DE RUMO
A reeleição de Lula aumentou o receio de investidores de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista tende a elevar o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo, pressionando os juros futuros.
Taxas mais altas, por sua vez, encarecem o crédito para empresas e consumidores e podem reduzir as perspectivas de lucro das companhias, afetando o desempenho da Bolsa.
A preocupação com o cenário fiscal também apareceu nos relatórios de instituições financeiras.
O BTG Pactual, por sua vez, afirmou esperar uma venda expressiva de ações brasileiras nas próximas semanas e projetou uma desvalorização de 10% a 15% do real.
“Taxas de juros de longo prazo, uma moeda mais fraca e expectativas desancoradas podem levar o Banco Central a evitar um corte de juros mais agressivo no curto prazo”, afirmaram os analistas do banco.
Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a forte queda da Bolsa reflete o aumento da aversão ao risco após o resultado eleitoral. Segundo ela, o acionamento do circuit breaker busca conter a pressão vendedora e evitar uma sequência de desvalorizações.
“Esse movimento defensivo dos agentes financeiros ocorre devido a um descompasso de expectativas do mercado em relação ao resultado das urnas, forçando os operadores a buscarem o dólar como refúgio enquanto aguardam sinalizações claras sobre as futuras diretrizes econômicas e fiscais do país”, afirma.
Por Isis Maciel
