Considerado um dos principais motivos de licença no trabalho, transtornos mentais atingem número histórico no Estado

Mato Grosso do Sul registrou 15 mil casos de afastamento do trabalho em 2025, isso significa que a cada 54 minutos, um trabalhador precisa se ausentar do serviço por questões mentais e psicológicas. O aumento foi de quase 70% quando comparado aos números registrados no ano retrasado, que chegou a nove mil em todo o Estado.

Diante da gravidade do assunto, o tema foi palco de discussões na ALEMS (Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul) no último dia 10. De acordo com relatório apresentado pela Assembleia Legislativa, a “ansiedade e depressão lideram os diagnósticos, evidenciando um padrão de adoecimento diretamente ligado à sobrecarga emocional, pressão por desempenho e condições de trabalho cada vez mais exigentes”.

No texto, a ALEMS também destacou que o assunto se faz necessário em alusão à campanha nacional Abril Verde, voltada à conscientização sobre saúde e segurança no trabalho. O mês de abril vem sendo utilizado para discutir sobre prevenção de acidentes físicos nos ambientes corporativos, mas, recentemente, há uma movimentação dos profissionais da psicologia e psiquiatria para incluir também questões relacionadas à saúde mental.

No âmbito nacional, o Brasil atingiu o maior número da série histórica de afastamentos por transtornos mentais em 2025. Foram 546 mil casos registrados em todo o país, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

Monitoramento estadual

Dados da SES (Secretaria de Estado de Saúde) cedidos ao jornal O Estado mostram que no período entre os anos de 2024 e 2025, 68 servidores estaduais foram afastados de suas atividades por questões relacionadas à saúde mental. No entanto, ainda segundo a pasta, “parte desses trabalhadores apresentou mais de um episódio no intervalo analisado, totalizando 249 registros de afastamento, o que evidencia a recorrência dos casos entre os indivíduos acometidos”, escreve.

No geral, esses afastamentos estão relacionados não apenas a transtornos mentais e comportamentais isolados, mas também ao esgotamento ocupacional, que, muitas vezes, se apresenta como a síndrome de burnout. A maior concentração de casos foi registrada no cargo de Especialista de Serviços de Saúde, com 24 servidores afastados.

Em seguida, destacam-se os enfermeiros, com seis profissionais de atestados e cirurgião-dentista, farmacêutico, e sanitarista com quatro cada. Entre os Assistentes de Serviços de Saúde, foram identificados 19 servidores afastados, distribuídos entre as funções de técnico de laboratório, auxiliar de enfermagem e técnico de enfermagem. Também foram registrados casos entre os ocupantes do cargo de Auxiliar de Serviços de Saúde, totalizando 17 servidores.

Para a SES “a distribuição dos afastamentos indica maior incidência entre trabalhadores que atuam diretamente no cuidado, no suporte assistencial e na interação contínua com usuários. Esse cenário pode estar relacionado às exigências emocionais inerentes ao trabalho em saúde, à exposição frequente a situações de sofrimento e à elevada carga psicossocial dessas atividades, fatores reconhecidos na literatura como potenciais contribuintes para o adoecimento mental”.

Casos de transtornos depressivos e ansiosos e reações ao estresse também são motivos de ausência do local de trabalho. No período indicado, foram 46 servidores com recorrência nos afastamentos.

A SES também informou à reportagem que tem adotado estratégias voltadas à promoção da saúde do trabalhador, à prevenção de agravos e à melhoria das condições laborais, e como parte dessas ações, está em fase final de elaboração o Plano de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio, Violência e Discriminações no Trabalho. “O documento será publicado com o objetivo de estabelecer diretrizes e ações para o enfrentamento de práticas de assédio moral, sexual e outras formas de violência no ambiente laboral”, afirma e finaliza a pasta.

Aconteceu comigo

Henry Guimarães é professor de história e chegou ao esgotamento emocional por conta do trabalho em 2021, quando a pandemia da Covid-19 ainda acontecia no Brasil. “Era um momento muito delicado para muita gente, eu estava iniciando minha trajetória na vida profissional enquanto professor de história e basicamente foi um acúmulo de muitas funções e muitas oportunidades, somadas ao fato de eu não conseguir dizer não para as coisas, não ter maturidade emocional para conseguir lidar com tudo”, relembra o historiador.

Na oportunidade de “fazer dinheiro”, ele conta que iniciou o ano em um mestrado e três contratos em escolas diferentes. No meio de entra e sai de salas, preparações de aulas, correções, pesquisas, entre outras coisas, ele foi diagnosticado com síndrome de burnout e transtorno de ansiedade. Passou por psicólogo e psiquiatra e teve que fazer acompanhamento e uso de medicações por mais três anos.

Com os profissionais ele também descobriu que apresentava TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), caracterizado por desatenção, hiperatividade, impulsividade e outros fatores que prejudicam, entre demais coisas, o desempenho produtivo. “Nesse contexto, a minha vida foi tomando outras formas, consegui entender várias coisas”.

Henry relembra o quão sortudo foi por ter amigos e família ao seu lado nesse processo, e, acima de tudo, dinheiro. “Não foi barato tudo isso, só para deixar claro. Para quem tem algumas dificuldades financeiras, isso acaba ficando mais difícil”. O professor pediu demissão de duas escolas e tentou lidar apenas com uma. Ele também não concluiu o mestrado, mas hoje vê a importância do descanso.

O historiador, acima de tudo, enxerga o processo como necessário e explica que o fez se conhecer mais. “Hoje a situação me ajuda bastante a pensar em decisões, o que fazer, cargas horárias, até porque professores estão dentro de um grupo que adoecem bastante pelo excesso de trabalho que se leva para casa e por conta da carga emocional dos alunos que transfere bastante”. Ele diz que também sente facilidade em reconhecer potenciais pessoas em risco. “Presencio muitos desses casos em sala de aula com frequência, tanto de alunos de cursinhos pré-vestibular como de colegas que adoecem e saem da profissão”.

Sobre abandonar a sala de aula, Henry diz que não foi algo que passou pela sua cabeça. “Eu nunca quis sair da minha profissão, eu vi que não era ela em si que causava aquilo, mas sim o excesso de atividades, de tarefas, que eram relacionadas à profissão e outras coisas como a questão acadêmica, acumular a carga de coordenação e escola. O que ficou claro para mim foi que eu precisava reduzir essa carga”, finaliza.

Visão profissional

A psicóloga Larissa Oliveira é especialista em TCC (terapia cognitivo comportamental) e atua na área de ansiedade e burnout em jovens e adultos. Ela afirma que nos últimos anos houve um aumento significativo nos casos relacionados a adoecimento no ambiente corporativo. “Atribuo isso, em parte, a uma maior conscientização sobre saúde mental. As pessoas estão mais informadas, buscam qualidade de vida e passaram a questionar a centralidade do trabalho. Hoje, há um movimento de equilibrar a vida profissional com outras áreas, como lazer, relações e autocuidado”, explica.

Larissa comenta que, em sua experiência clínica, pacientes que apresentam esses transtornos têm sinais parecidos e exemplifica como a sobrecarga e a pressão por produtividade reagem no indivíduo. “Elas geram sensação constante de insuficiência, medo de não dar conta e percepção de fracasso. Isso afeta diretamente a autoestima, a autocompetência e a autoeficácia do indivíduo, podendo levar a sintomas ansiosos, depressivos e ao esgotamento”.

Para quem desconfia que está além do seu limite, Larissa dá uma dica. “O ideal é buscar ajuda aos primeiros sinais, como falta de vontade de ir trabalhar, procrastinação frequente, perda de sentido no que faz, crises de choro ou ansiedade antes do expediente.Ignorar os sinais pode agravar o quadro. Muitas pessoas tentam sustentar uma imagem de força, buscam aprovação profissional ou têm receio de mudanças por questões financeiras. No entanto, isso pode levar a um adoecimento mais intenso e, consequentemente, a afastamentos mais prolongados”.

Agora é obrigatório

A NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) é a principal referência para a segurança e saúde no trabalho no Brasil. Com a atualização realizada em 2024, passou a ser obrigatória a gestão dos riscos psicossociais nas empresas. Isso envolve a adoção de medidas para prevenir situações como estresse, assédio e sobrecarga, além de promover um ambiente mais saudável, com melhor distribuição de tarefas, apoio aos trabalhadores e estímulo ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Maria Gabriela Arcanjo

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