
Interesse permanece elevado em Campo Grande, apesar dos preços altos e dos alertas sobre produtos irregulares
Meses depois do auge da febre das chamadas canetas emagrecedoras, a procura pelo medicamento continua intensa nas farmácias de Campo Grande e altera a rotina do comércio farmacêutico. Enquanto grandes redes registram clientes em busca dos produtos todos os dias, farmácias de bairro recebem número alto de consultas e avaliam investir em infraestrutura para começar a comercializar as canetas.
O movimento também ocorre em meio à chegada de novas opções no mercado, à expectativa de redução nos preços com a primeira caneta produzida no Brasil e aos alertas das autoridades sobre o crescimento do comércio ilegal desses medicamentos.
Hoje, o preço ainda é um dos principais obstáculos para muitos consumidores. Nas farmácias brasileiras, as canetas emagrecedoras custam entre aproximadamente R$309 e mais de R$4 mil, dependendo do medicamento e da dosagem. As marcas importadas, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, normalmente variam entre R$1 mil e R$2 mil, podendo ultrapassar R$4 mil nas apresentações de maior dosagem da tirzepatida.
Demanda crescente nos bairros
Mesmo sem comercializar as canetas, a Farmácia Droga Bem, no bairro Rita Vieira, recebe diariamente mensagens de clientes interessados no produto. Segundo a funcionária Danielle Aparecida, a procura é muito superior ao esperado.
“A procura é muito grande. As mensagens que a gente recebe pelo WhatsApp são fora do comum”, afirmou a reportagem.
Ela explica que o estabelecimento ainda não vende as canetas porque não possui a estrutura exigida para armazená-las corretamente. “A gente não comercializa porque ainda não tem a geladeira adequada. Estamos estudando se compensa fazer esse investimento”.
Mesmo sem vender o medicamento, Danielle afirma que a demanda aparece de outra forma. “Praticamente todos os dias a gente vende seringas de insulina. Quase sempre é para pessoas que usam as canetas emagrecedoras”.
Segundo ela, a chegada da versão nacional ainda gera dúvidas sobre o impacto que terá em pequenas farmácias. “Agora que saiu essa versão brasileira, a gente ainda está estudando como vai funcionar. Como somos uma farmácia pequena, pela alta é uma possibilidade começar a comercializar”.

Foto: Nilson Figueiredo
Redes registram procura diária
Nas grandes redes, o cenário é semelhante. Em uma farmácia localizada na Avenida Afonso Pena, a farmacêutica informou que a procura permanece constante.
Segundo ela, clientes procuram as canetas todos os dias, embora as vendas efetivas sejam menores devido ao alto custo do tratamento. “Todo dia tem gente procurando”.
Ela estima que as vendas ocorram, em média, duas ou três vezes por semana, justamente porque o preço ainda restringe parte dos consumidores. A expectativa, porém, é de que esse cenário mude. “Agora dizem que vão abaixar o valor dessas canetas. Aí o público vai procurar ainda mais”.
Para a farmacêutica, a chegada das versões brasileiras pode tornar o medicamento mais acessível e ampliar significativamente a demanda.
Caneta brasileira pode ampliar mercado
A expectativa dos comerciantes ganhou força após a aprovação, pela Anvisa, da Ozivy, primeira semaglutida sintética desenvolvida no Brasil.
O medicamento, produzido pela farmacêutica EMS, utiliza o mesmo princípio ativo do Ozempic, cuja patente expirou em março deste ano, e foi aprovado após comprovação de eficácia, segurança e qualidade. Inicialmente, a indicação permanece voltada ao tratamento de adultos com diabetes tipo 2, como complemento à dieta, exercícios físicos e outros medicamentos quando necessário.
A apresentação também é em caneta de aplicação semanal. Diferentemente do Ozempic, o Ozivy deve permanecer refrigerado entre 2°C e 8°C, tanto antes quanto depois do início do uso, exigindo armazenamento adequado nas farmácias.
A expectativa do setor é que o aumento da concorrência contribua para reduzir os preços ao consumidor e ampliar o acesso ao medicamento. No entanto, especialistas reforçam que o uso das canetas deve ocorrer apenas com prescrição e acompanhamento médico, principalmente diante do crescimento da procura por motivos exclusivamente estéticos e do aumento do comércio irregular desses produtos.
Maior apreensão encontra 5.850 produtos em van na Ponte da Amizade
A Receita Federal realizou, na sexta-feira (10), a maior apreensão de canetas emagrecedoras já registrada na aduana da Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu (PR). Em uma van com placas do Paraguai, agentes encontraram 5.850 canetas e ampolas de medicamentos para emagrecimento escondidas sob o capô do veículo. O motorista fugiu de volta ao Paraguai ao ser solicitado a abrir o compartimento.
Os produtos incluíam tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, e retatrutida, substância ainda experimental. Além de terem sido transportados sem refrigeração adequada, a importação desses medicamentos do Paraguai é proibida pela Anvisa. A carga foi avaliada em cerca de R$ 735 mil.
Com essa operação, as apreensões de canetas emagrecedoras em 2026 já somam 115.647 unidades, um aumento de 1.446,3% em relação a 2025. A Receita Federal alerta que o transporte e a comercialização desses produtos fora dos canais autorizados colocam em risco a eficácia dos medicamentos e a saúde dos consumidores.
