
Segundo advogado, requerimentos serão analisados após manifestação do Ministério Público
A Justiça de Mato Grosso realizou na segunda-feira (8) a audiência para ouvir as testemunhas de defesa dos réus denunciados na ação penal decorrente da quarta fase da Operação Successione, investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado). A defesa de um dos réus revela ao Jornal O Estado que nesta semana sairá o pedido para revogar o mandado de prisão.
As oitivas não possuem poder direto de julgamento e nem determinam uma possível liberdade dos réus. O advogado, que não será identificado, explica que a soltura de Rhiad Abdulahad e Jonathan Gimenez caberá a defesa de cada acusado requerer a soltura.
“O réu que está com mandado de prisão ativo, mas não está preso, por isso iremos requerer a revogação ainda essa semana tendo em vista o avanço do caso”, afirma e explica que não fez o pedido ainda na segunda-feira por estratégia.
A sessão ocorreu a portas fechadas no Fórum de Campo Grande e foi conduzida pelo juiz José Henrique Kaster Franco, da 4ª Vara Crimina e apura a expansão e o controle do jogo do bicho no Estado. A oitiva foi realizada no auditório Desembargador Assis Pereira da Rosa. As testemunhas permaneceram no auditório Dr. Francisco Giordano Neto, sendo chamadas conforme a condução da sessão.
Por tramitar sob sigilo, o conteúdo dos depoimentos não foi divulgado e o acompanhamento da audiência ficou restrito às partes envolvidas no processo.
Políticos envolvidos
Entre os convocados pela defesa estavam o deputado federal Dagoberto Nogueira (PP) e o vereador de Campo Grande Landmark Rios (PT). Ambos foram chamados para prestar esclarecimentos em favor de investigados que respondem ao processo. O deputado não participou da audiência e explica que participa de compromisso em Rio Brilhante.
Antes da audiência, Dagoberto afirmou não compreender o motivo de sua convocação. Segundo o parlamentar, ele não possui relação com os fatos apurados e não vê sentido em ter sido incluído no rol de testemunhas. “Eu nem sei por que esse pessoal me colocou como testemunha, porque não acompanhei nada desse caso”, declarou. O deputado acrescentou que já passou por situações semelhantes em outros processos. “Em várias ocasiões me colocaram como testemunha só para enrolar o processo”, afirmou ao Jornal O Estado.
Já Landmark foi arrolado pela defesa de Marco Aurélio Horta, ex-chefe de gabinete do ex-deputado estadual Neno Razuk. O vereador informou que conhece Marco Aurélio há mais de 15 anos e que seu depoimento teria como foco a trajetória pessoal e política do investigado.
Segundo o parlamentar, a relação entre os dois sempre esteve ligada ao ambiente político. “Eu sempre convivi com ele em Dourados e em Campo Grande. Os meus tratos com ele sempre foram da política”, afirmou. De acordo com Landmark, Marco Aurélio atuava nos bastidores, organizando reuniões e articulando contatos, sem nunca demonstrar interesse em disputar cargos eletivos.
O vereador explicou ainda que foi chamado para falar sobre quem é Marco Aurélio, como surgiu a relação entre ambos e qual era sua atuação no meio político. “Ele era uma pessoa da política. Gostava e gosta da política. Sempre conversei com ele sobre essas pautas”, declarou e diz ter sido surpreendido pela prisão do ex-chefe de gabinete. “Eu sempre via ele organizando reuniões, falando, conectando as pessoas. Eu não esperava que isso acontecesse”, relatou.
O petista compareceu presencialmente à audiência, porém preferiu deixar a corte e participar por meio de videoconferência ao ser informado que o processo terá uma duração prolongada. Outras testemunhas do caso também optaram por fazer o mesmo.
Conforme determinação judicial, os réus Rhiad Abdulahad e Jonathan Gimenez Grance participaram presencialmente da audiência. Outros acusados acompanharam os trabalhos por videoconferência, modalidade autorizada pela Justiça para parte dos envolvidos no processo.
A operação
A ação penal tem origem na quarta fase da Operação Successione, deflagrada pelo Gaeco em novembro de 2025. Na ocasião, foram cumpridos 20 mandados de prisão preventiva e 27 de busca e apreensão contra investigados apontados como integrantes de uma organização criminosa ligada à exploração do jogo do bicho.
De acordo com o Ministério Público Estadual, essa etapa identificou novos envolvidos na suposta ampliação da atividade em Mato Grosso do Sul após mudanças no cenário da exploração da jogatina. Entre os alvos estavam integrantes da família Razuk, incluindo Roberto Razuk e os filhos Rafael Godoy Razuk e Jorge Razuk Neto. Os promotores apontam o ex-deputado estadual Neno Razuk como uma das lideranças da estrutura investigada.
A Operação Successione começou em dezembro de 2023, após apurações relacionadas a roubos de malotes vinculados ao esquema. Com o avanço das investigações, o Gaeco passou a sustentar a existência de um grupo organizado que buscava ampliar sua influência sobre a atividade ilegal no Estado.
Segundo os investigadores, a organização contaria com policiais militares da reserva e um ex-policial militar, que se valeriam da condição funcional e do porte de arma de fogo para fortalecer a atuação do grupo. A acusação sustenta que a estrutura empregava intimidação e violência para consolidar espaço e expandir o domínio sobre a exploração do jogo do bicho.
