
Alta supera média nacional e ocorre durante o plantio da safra 2026/27
O diesel comum ficou 5,41% mais caro em outubro no Centro-Oeste e chegou a R$ 7,21 por litro, acima da média nacional, de R$ 7,19. O diesel S-10 também registrou aumento na região, de 3,69%, alcançando R$ 7,59. Os dados são do IPTL (Índice de Preços Edenred Ticket Log), levantamento que reúne transações realizadas em postos de combustíveis.
A alta ocorre durante o plantio da safra de verão 2026/27, período em que aumenta a demanda por combustível para abastecer máquinas agrícolas e veículos utilizados no transporte de cargas. Em Mato Grosso do Sul, onde o agronegócio tem participação relevante na economia, o diesel é um dos principais componentes dos custos de produção e escoamento da safra.
O analista de economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenez, explica que a alta do diesel afeta o custo de produção por dois caminhos: “O primeiro é direto, nas operações mecanizadas de plantio, pulverização e colheita. A demanda por combustível é pouco flexível no curto prazo, porque não há substituto e a janela de plantio não permite adiar as operações à espera de um preço melhor. O segundo caminho é o frete, em que o repasse não é imediato e depende da relação entre oferta de caminhões e demanda por carga. Em períodos de menor movimento, o transportador pode absorver parte da alta” explica o especialista.
A pressão no preço do diesel também aparece nas bombas de Mato Grosso do Sul. Em apuração do jornal O Estado, com base em dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), o litro do combustível passou de R$ 5,97, em 26 de outubro de 2025, para R$ 6,83 em 25 de outubro de 2026, uma alta de 15,57% em 12 meses. O aumento pesa diretamente no bolso de caminhoneiros e produtores rurais, que dependem do combustível para manter a atividade.
Ele acrescenta também que a Aprosoja/MS não projeta, neste momento, revisão da margem apenas por causa do diesel, porque o resultado é mais sensível à produtividade e ao preço de venda. “O risco está no efeito combinado: uma quebra de produtividade eleva o custo por saca, e a alta pode persistir até a colheita caso a subvenção federal termine, somando-se à atualização do ICMS prevista para fevereiro. Arrendatários e produtores endividados são os mais expostos, por terem margem mais estreita e menor folga de caixa”, finaliza Raphael.
No Brasil, o diesel comum encerrou outubro com preço médio de R$ 7,19 por litro, aumento de 4,81% em relação a setembro. Já o S-10 chegou a R$ 7,44, alta de 2,48%. Entre os combustíveis leves, o etanol subiu 1,65%, para R$ 4,31, enquanto a gasolina recuou 0,30%, com média de R$ 6,71.
Frete parado e despesas crescentes
O cenário também preocupa o caminhoneiro autônomo Laercio Andrade, que avalia que a combinação de diesel mais caro, aumento dos pedágios e fretes sem reajuste tornou a atividade cada vez mais difícil de sustentar.
“Essa situação hoje já está negativa para todo mundo. Não tem mais como tocar. O diesel sobe, o pedágio sobe, o frete continua o mesmo ou abaixa, então não tem condições de tocar mais”, declarou.
Para ele, a falta de equilíbrio entre os custos operacionais e a remuneração pelo transporte faz com que os profissionais utilizem recursos que deveriam permanecer como reserva financeira para conseguir continuar trabalhando.
“Não tem como equilibrar, está gastando o ganho. O que tem guardado, você tem que dispor”, relatou.
Laercio também mencionou a possibilidade de uma paralisação de caminhoneiros, que estaria sendo discutida pela categoria. Apesar de considerar que uma interrupção das atividades teria impacto negativo em suas próprias contas, devido aos compromissos financeiros, afirma que a situação pode levar os profissionais a aderirem ao movimento.
“Para mim seria negativo, porque eu tenho conta para pagar. Mas é o que vai ser feito, infelizmente vai ter que parar”, disse.
O caminhoneiro afirma que, sem redução dos custos ou aumento na remuneração dos fretes, a tendência é continuar trabalhando enquanto for possível. “Vamos tocar até o final do ano para ver o que desce. Se não der mais, para”, afirmou.
Impacto de R$ 7,21

O mesmo acontece com Bruno Nascimento, o caminhoneiro autônomo tem visto o preço do diesel subir e as despesas aumentarem. “Não tem ganho né? Sete reais no litro pesa demais para a gente que pega a estrada, porque sai do nosso bolso e o que ganhamos não corresponde” afirma.
Ele afirma que mesmo que a demanda aumente, ainda sim sairá no prejuízo. “Mesmo que a gente tenha um aumento na procura pelo serviço, aumenta os gastos também, então a gente sempre sai perdendo”.
A alta do diesel nas bombas ocorre em meio a ações da ANP contra possíveis abusos na comercialização de combustíveis. Nesta terça-feira (3), a agência informou que aplicou penalidades superiores a R$ 700 milhões a distribuidoras por aumentos considerados imotivados, que chegaram a 4.000% na margem entre o custo de aquisição e o preço de venda.
Subsídio prorrogado
A alta dos preços ocorreu mesmo com a prorrogação da subvenção econômica ao diesel pelo governo federal. Na terça-feira (27), a União estendeu por mais 30 dias o subsídio de R$ 2,12 por litro, com o objetivo de reduzir o repasse das oscilações internacionais ao mercado brasileiro.
Segundo a Edenred Mobilidade, a alta do petróleo, as restrições de oferta e as margens elevadas de refino contribuíram para o encarecimento do combustível. Em outubro, o barril do petróleo Brent chegou a US$ 113,17 no dia 22. Mais de 25% do diesel consumido no Brasil é importado, o que deixa os preços internos mais expostos às variações internacionais.
“Quando o diesel sobe em um período de maior atividade agropecuária, o impacto vai além do abastecimento dos veículos. O combustível é um componente relevante do custo de produção e do transporte de mercadorias”, explica Vinicios Fernandes, diretor de Unidades de Negócios da Edenred Mobilidade.
O IPTL considera abastecimentos realizados em cerca de 21 mil postos credenciados da Edenred Ticket Log. A empresa informa que sua base reúne transações de mais de 1 milhão de veículos, com média de 55 operações por segundo.
Por Djeneffer Cordoba, Isis Maciel e Enzo Pereira
