
Com preços que variam entre R$ 10 e R$ 20, estabelecimentos se multiplicam na região central e refletem a busca dos consumidores por alternativas mais acessíveis
Quem circula pelas principais ruas do Centro de Campo Grande já percebe uma mudança no cenário comercial. As lojas de preço único, que oferecem produtos com valores padronizados e acessíveis, vêm se multiplicando e atraindo consumidores em busca de economia e praticidade. Tradicionalmente presentes em bairros como Moreninhas, Aero Rancho e Jardim Noroeste, esses estabelecimentos passaram a ocupar pontos estratégicos da região central, contribuindo para o aumento da circulação de pessoas e para a revitalização do comércio local.
‘Preço Máximo R$ 7,99’. Com fachadas chamativas e a promessa de produtos a preços populares, essas lojas conquistam espaço em uma área historicamente marcada pelo comércio varejista. Entre os itens oferecidos estão utensílios domésticos, produtos de decoração, brinquedos, papelaria, cosméticos, artigos de higiene pessoal e acessórios. A estratégia é simples: variedade, preço baixo e facilidade de compra.
O crescimento desse modelo de negócio acompanha mudanças no comportamento do consumidor brasileiro. Em um cenário de inflação acumulada nos últimos anos e redução do poder de compra das famílias, muitos consumidores passaram a priorizar compras mais planejadas e a buscar alternativas que permitam economizar sem abrir mão do consumo. Nesse contexto, as lojas de preço único encontraram terreno fértil para expansão.
Para Adrieli Silva Souza, gerente da loja Tudo Make, onde todos os produtos custam R$ 10, o preço acessível é o principal fator de atração dos clientes.
“Atendemos pessoas de todas as classes sociais. Muita gente procura a loja por causa do preço e da qualidade dos produtos. Temos clientes que compram para uso próprio e outros que revendem os itens. Muitas vezes a pessoa compra por R$ 10 e consegue revender por R$ 20, gerando uma renda extra para complementar o orçamento da família”, afirma a profissional.
Segundo a gerente, os preços competitivos também têm atraído consumidores que antes realizavam compras exclusivamente pela internet. E agora são atraídas para consumo na área central da cidade.
“Muita gente comprava pela internet ou fazia compras apenas nos bairros. Quando vêm ao Centro, encontram produtos semelhantes por um valor mais baixo. Muitas vezes chegam procurando um item específico e acabam encontrando outras opções que também atendem às suas necessidades”, relata.
Outra loja que já chama a atenção antes mesmo da inauguração, é uma unidade da rede Top Brasil CG, na Rua Marechal Rondon. Em sua rede social a empresa anunciou a abertura oficial no dia 20 de junho com a promessa de preços que vão até R$ 30. Nesta sábado, a reportagem do jornal passou pelo ponto e observou um pouco dos preparativos à todo vapor antes da inauguração.
Diferencial
O mesmo fenômeno é observado na Tudo 20 – loja de roupas e acessórios localizada em uma das principais ruas da região central. André Delgado, locutor da empresa, afirma que a procura pelos produtos é constante desde a inauguração da unidade.
“Nossa proposta é oferecer preços acessíveis para qualquer pessoa. Aqui o cliente encontra perfume, camiseta, boné, garrafa térmica, copo térmico, tudo por R$ 20. É um modelo que facilita a compra e ajuda bastante a população porque permite adquirir vários produtos gastando pouco”, explica.
Com mais de 15 anos de atuação no comércio campo-grandense, André avalia que a chegada dessas lojas tem contribuído para devolver movimento ao Centro da Capital.
“É uma novidade que atrai muitas pessoas para a região central. Além de movimentar o comércio, também gera oportunidades de trabalho. Quanto maior a procura por esse tipo de loja, mais empregos são criados e mais o comércio como um todo é beneficiado”, destaca.
Entre os consumidores, a avaliação também é positiva. Para a estudante de Jornalismo Gabriela Ruas, a expansão das lojas de preço único ampliou o acesso da população a diversos produtos.
“É muito bom porque trouxe para o Centro produtos que antes eram mais difíceis de encontrar ou tinham preços mais elevados. Muitas pessoas que não tinham condições de comprar determinados itens agora conseguem ter acesso”, ressalta.
Além dos preços baixos, ela destaca a diversidade de mercadorias disponíveis. “Consigo comprar produtos para mim, para a minha casa e até presentes em um único lugar. A variedade é muito grande e isso facilita bastante”, completa.
Resiliência do varejo
Para o presidente da CDL-CG (Câmara de Dirigentes Lojistas de Campo Grande), Adelaido Figueiredo, as lojas de preço único se transformaram em importantes âncoras comerciais da região central, atraindo consumidores e beneficiando outros segmentos da economia local.
“Essas lojas de utilidades se tornaram as novas âncoras do Centro de Campo Grande. O preço baixo é um dos maiores atrativos do varejo atualmente. A pessoa vai ao Centro para comprar um produto de R$ 15, mas acaba pagando estacionamento, consumindo em restaurantes e visitando outras lojas. Isso gera movimento e beneficia toda a cadeia econômica da região”, avalia sobre o cenário.
Apesar do crescimento do setor, Adelaido ressalta que os números refletem uma realidade de consumo mais cauteloso por parte da população.
“Para entender o cenário atual, é preciso olhar os dados. Antes das obras de revitalização do Centro e da pandemia, o ticket médio das lojas da região era de aproximadamente R$ 160. Hoje, esse valor está em torno de R$ 42. O crescimento das lojas de preço acessível mostra como o mercado está se adaptando à capacidade de compra dos consumidores. As pessoas continuam querendo consumir, mas o orçamento mais apertado determina o valor que elas conseguem gastar. O varejo apenas ajustou sua oferta para atender essa nova realidade”, explica.
Especialistas do setor apontam que a expansão das lojas de preço único acompanha uma tendência observada em diversas cidades brasileiras. Em períodos de desaceleração econômica e renda pressionada, modelos de negócio focados em preços populares costumam ganhar força, atraindo consumidores que buscam maximizar o valor de cada compra. Em Campo Grande, o fenômeno não apenas altera a dinâmica do comércio local, mas também reforça o papel do Centro como principal pólo de consumo da cidade.
Por Ian Netto
