
A disseminação de plataformas de apostas digitais troca o consumo no varejo local pela falsa ilusão de enriquecimento rápidO
O avanço das apostas online, as chamadas bets, converteu-se em uma ameaça silenciosa à estabilidade financeira das famílias e ao comércio de Mato Grosso do Sul. O quadro “Para Onde Vai o Meu Dinheiro” analisa a promessa do dinheiro fácil, que começou como entretenimento digital e transformou-se em um dreno econômico contínuo que desvia recursos que antes eram destinados à alimentação, saúde e contas básicas.
Dados nacionais dimensionam o problema. O Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal), com base em dados do Banco Central, estimou que as famílias sofreram perda líquida de R$ 62,5 bilhões com apostas em 2025. No mesmo período, 25,3 milhões de pessoas realizaram apostas no País.
O principal perigo das apostas é a perda do controle, momento em que o lazer se torna um pesadelo. A reportagem conversou com o apostador, de 19 anos, que terá sua identidade preservada na matéria, o qual relatou como foi inserido neste meio das apostas. “Eu via bastante propaganda de futebol, principalmente, e uma coisa foi levando a outra. De tanto você assistir uma hora você fica curioso e entra”.
O que começou com apostas esportivas, migrou também para os casinos online, o jovem relata que parou com esse hábito quando “abriu o olho” para a sua situação. “Uma hora você se toca que aquilo não vai te dar dinheiro. Não chegou a faltar nada em casa, graças a Deus nunca ficou faltando nada, mas eu percebi que estava perdendo muito dinheiro de forma desnecessária”, relata.
O jovem reforça que o principal ponto para ele é o autocontrole, atualmente ele continua com as apostas esportivas que na sua visão existe uma análise feita previamente que pode te garantir um resultado melhor.
“ A aposta esportiva ela pode acontecer de fato, mas claro é um mercado que você pode manipular as pessoas muito fácil, só que pra pessoa que já acompanha futebol e entende, a chance dela perder muito dinheiro com isso é baixa. Agora, se a pessoa tá indo só pelo embalo dos outros ouvindo palpite e indo do que ela acha, aí ela vai perder muito dinheiro sim com certeza”, finaliza.
Esse desvio de recursos afeta diretamente a mesa do cidadão e corrói o poder de compra regional. Para o economista Aldo Barrigosse, o endividamento decorrente dos jogos asfixia a economia das cidades.
“Menos dinheiro na praça, o comércio funciona, fica mais fraco. As famílias têm menos dinheiro para investir no seu orçamento doméstico, como alimentação, moradia, saúde”, alerta.
Aldo explica que o capital aplicado nas plataformas sabota o consumo de itens necessários. “As bets, acabam pegando grande parte do orçamento das famílias, que é um orçamento que poderia, por exemplo, fazer uma poupança para amanhã aquela família de repente comprar uma geladeira nova, comprar um fogão, comprar um carro, ou até guardar como emergência”, descreve o economista.
A atração ocorre pela ilusão de ganho fácil, mas o sistema é programado de forma estritamente desfavorável ao usuário. Aldo Barrigosse aponta a presença de gatilhos psicológicos desenhados pelas operadoras. “As bets têm o que a gente chama de gatilhos comerciais, fazendo com que você esteja cada vez mais gastando dinheiro lá e tem aquela ilusão que vai retornar aquilo pro seu bolso. E no fundo é só programada, a questão matemática ou a questão dos algoritmos das bancas de apostas, eles fazem com que a banca sempre ganhe, ou seja, a empresa de aposta sempre ganha e o usuário acaba sempre gastando mais”, detalha o economista.
Comércio local também perde
O enfraquecimento do consumo atinge em cheio as empresas que dependem do movimento diário. O presidente da ACICG (Associação Comercial e Industrial de Campo Grande), Omar Aukar, adverte para os reflexos econômicos desse consumo.
“O crescimento das apostas online também traz uma preocupação do ponto de vista econômico, porque parte da renda que poderia ser destinada ao consumo de bens e serviços passa a ter outro destino. Quando esse recurso deixa de ser gasto no comércio, na alimentação, no lazer ou na contratação de serviços, ele também deixa de circular na economia local e de movimentar uma cadeia de empresas”, destaca o dirigente.
Por Enzo Pereira
