Especialista avalia influência da vacinação e mudança na circulação dos vírus respiratórios

Mato Grosso do Sul encerrou o primeiro semestre de 2026 com uma redução de 27% nos casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em comparação com o mesmo período do ano passado. Os óbitos provocados pela doença também apresentaram queda, de 33%, segundo os boletins epidemiológicos da SES (Secretaria de Estado de Saúde).

Em 2025, o Estado contabilizava 6.352 casos de SRAG e 539 mortes. Já nos seis primeiros meses de 2026, foram registrados 4.638 casos e 363 óbitos, uma redução de 1.714 notificações e de 176 mortes no comparativo entre os períodos.

Na Capital, a tendência também foi de queda. Campo Grande passou de 2.116 casos e 169 óbitos registrados no primeiro semestre de 2025 para 1.517 casos e 118 mortes no mesmo intervalo deste ano, representando uma redução de aproximadamente 28% nas notificações e de 30% nos óbitos.

Para a infectologista Dra. Andyane Tetila, do HU-UFGD (Hospital Universitário da Grande Dourados), a melhora dos indicadores é resultado de uma combinação de fatores e não pode ser explicada por uma única causa.

Ao jornal O Estado , a especialista aponta que a menor circulação de alguns vírus com maior potencial de gravidade, o aumento da imunidade da população após infecções anteriores e o impacto das campanhas de vacinação contra influenza e Covid-19 entre os grupos prioritários podem ter contribuído para a redução dos casos graves.

“A redução dos casos e, principalmente, dos óbitos por SRAG é uma notícia muito positiva. Provavelmente, ela é resultado de um conjunto de fatores, e não de uma única causa. Podemos citar uma menor circulação de alguns vírus com maior potencial de gravidade em determinados períodos, uma maior imunidade da população adquirida após infecções e campanhas de vacinação anteriores, além do impacto da vacinação contra influenza e Covid-19 nos grupos prioritários. Também é possível que o diagnóstico mais precoce e o aprimoramento da assistência tenham contribuído para reduzir a mortalidade”, explica.

A infectologista ressalta, porém, que as doenças respiratórias apresentam comportamento variável ao longo dos anos. “É importante lembrar que as doenças respiratórias apresentam comportamento sazonal e variam de um ano para outro. Por isso, embora os números indiquem uma tendência favorável, eles devem sempre ser interpretados considerando o vírus predominante, a cobertura vacinal e o perfil da população acometida”, afirma.

Mudança na circulação dos vírus

Além da redução no número de casos graves, os dados da SES mostram uma mudança no perfil dos vírus respiratórios identificados em Mato Grosso do Sul.

Em 2025, o VSR (Vírus Sincicial Respiratório) era o principal agente encontrado entre os casos de SRAG, responsável por 40,1% das detecções. O rinovírus aparecia em segundo lugar, com 25,6%, seguido pela Influenza A (H1N1), com 16,6%.

Neste ano, o cenário mudou. O rinovírus passou a liderar os registros, representando 39,2% dos agentes identificados, enquanto o VSR caiu para 20,6%. A Influenza A (H3N2) aparece na sequência, com 12,8%.

Segundo Andyane, essa alternância faz parte do comportamento natural dos vírus respiratórios. O rinovírus, apesar de frequentemente associado a quadros leves, também pode provocar formas graves em grupos vulneráveis, como crianças pequenas, idosos, imunossuprimidos e pessoas com doenças respiratórias crônicas.

“O rinovírus é um agente extremamente frequente e circula praticamente durante todo o ano. Embora seja conhecido por causar quadros leves, ele também pode levar a formas graves em crianças pequenas, idosos, imunossuprimidos e pacientes com doenças respiratórias crônicas. Já o VSR continua sendo um dos principais responsáveis por internações de lactentes, especialmente nos primeiros meses de vida”, explica.

Vacinação contra VSR protege bebês

A especialista destaca ainda o impacto das novas estratégias de prevenção contra o VSR, especialmente a vacinação de gestantes, que passou a ser ofertada pelo SUS.

A imunização permite que a mãe produza anticorpos que são transferidos ao bebê ainda durante a gestação, oferecendo proteção nos primeiros meses de vida, fase em que há maior risco de bronquiolite grave, insuficiência respiratória e necessidade de internação.

“Quando a gestante é vacinada, ela produz anticorpos que são transferidos para o bebê ainda durante a gestação. Dessa forma, a criança já nasce protegida justamente no período em que é mais vulnerável”.

Segundo Andyane, a expectativa é que a medida contribua para reduzir internações, necessidade de suporte ventilatório e mortes associadas ao VSR, além de diminuir a pressão sobre os serviços de saúde nos períodos de maior circulação dos vírus respiratórios.

A médica reforça, contudo, que a vacinação precisa estar associada a outras medidas de prevenção, como higiene das mãos, etiqueta respiratória e evitar o contato de pessoas com sintomas respiratórios com recém-nascidos e outros grupos vulneráveis.

Crianças continuam entre as mais afetadas

Mesmo com a redução geral dos casos de SRAG, crianças pequenas seguem como um dos principais grupos atingidos pela doença.

Entre menores de um ano, as notificações caíram de 1.680 no primeiro semestre de 2025 para 1.004 no mesmo período de 2026, uma redução próxima de 40%. Apesar da queda, essa faixa etária continua exigindo atenção pelo maior risco de evolução para quadros graves.

Por Geane Beserra

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