
Com 60% de recusa por familiares em MS, Sebastião reforça a importância do registro do desejo antes da morte
Em Mato Grosso do Sul, o índice de famílias que rejeitam realizar a doação dos órgãos de entes falecidos chega a 60%, um percentual considerado alto, tendo em vista que doar um órgão pode significar a chance de uma nova vida para quem espera na fila por um doador compatível. Foi a doação de um fígado, por exemplo, que colocou fim à espera de 1 ano e garantiu um recomeço para Sebastião Conceição, de 51 anos, transplantado em 2025, no Hospital do Pênfigo, em Campo Grande.
Diagnosticado, em outubro de 2023, com uma grave cirrose sem origem definida — não havia histórico de abuso de bebidas alcoólicas ou medicamentos e nem sinais de hereditariedade — os médicos lhe deram, no máximo, 2 anos de vida, nos quais precisaria de cuidados paliativos que iriam garantir a qualidade de vida. A reviravolta veio, em meio ao tratamento e diversas internações hospitalares, quando um doador compatível, encontrado em Mato Grosso, reacendeu a esperança de uma nova vida.
Ao jornal O Estado, ele relata que o diagnóstico de cirrose veio após passar mal e ser levado ao médico pela esposa. Após diversos exames de imagem, verificou-se que o fígado de Sebastião estava comprometido e não havia cura, apenas medicamentos que poderiam lhe conferir conforto no que seriam seus últimos anos de vida.
“Eu fiquei desacordado e em estado grave por uma semana. Depois, veio a notícia de que estava com uma doença muito grave, que não tinha cura e que teria, no máximo, 2 anos de vida. Tudo que o hospital e os médicos poderiam fazer por mim era me dar um pouco de qualidade de vida com medicamentos e os recursos que tinham. Eu era uma pessoa muito ativa, mas passei a ter internações frequentes, uma atrás da outra, porque meu fígado encolheu, estava murcho e ressecando”, conta.
Com 6 meses de tratamento, Sebastião começou a ser acompanhado pelo então recém-criado Centro de Transplante do Hospital do Pênfigo, na Capital, quando, em 2025, o quadro de saúde se agravou e Sebastião passou vários dias internado no CTI (Centro de Terapia Intensiva), sem esperanças de realizar um transplante, já que era quase impossível encontrar um doador que fosse compatível devido às condições de saúde.
“Mesmo que eu estivesse em condições de fazer a cirurgia, os médicos falaram que o mais difícil era aparecer um órgão compatível comigo, devido às minhas condições e características. Com o meu perfil, a compatibilidade era algo quase que impossível”, detalha.
No entanto, um ato de solidariedade de uma família em Mato Grosso fez com que um fígado compatível com Sebastião fosse coletado e trazido à Capital de MS para que fosse transplantado no paciente, lhe dando qualidade e tempo de vida. O administrador realizou a cirurgia de recebimento do novo órgão no dia 7 de março, um ano após entrar na fila de espera.
De acordo com a SES (Secretaria de Estado de Saúde), hoje, esta fila é composta por 812 pessoas, sendo que muitas estão há anos esperando por uma resposta, tempo que poderia ser abreviado caso os 60% de recusa se revertesse em doações, seja de córneas, rins, fígado, pulmões, coração, pâncreas, pele e tecido musculoesqueléticos, bem como de valvas cardíacas, possibilitando que mais histórias como a de Sebastião pudessem ser contadas.
“Hoje eu me considero uma pessoa que está muito bem consumindo a medicação, conforme as orientações médicas e sendo acompanhada pela equipe de transplantes. Agora tudo isso é vitalício, mas estou bem, tendo a gralça e a glória de viver dias maravilhosos na minha vida. Com muita gratidão à família do doador.
Fila de espera e como ser um doador
Das 812 pessoas à espera de um órgão, 484 aguardando por cirurgia de transplante de córnea, 308 por um rim, 19 por fígado e 1 por um pâncreas. Por outro lado, a aceitação para que um ente falecido seja um doador de órgãos não passa de 40%, o que dificulta bastante o andamento da fila.
“A autorização familiar para a doação amplia as possibilidades de realização de transplantes e pode beneficiar pacientes que aguardam por esses procedimentos Por isso, mesmo que a pessoa tenha expressado em vida o desejo de ser doadora, é importante que os familiares tenham conhecimento dessa vontade e participem da decisão”, disse a pasta, em nota ao O Estado.
Na mesma nota, a secretária informa que, em 2026, foram realizados 326 transplantes, sendo 169 de córnea, 48 de fígado, 103 de rim e seis transplantes autogênicos de medula óssea. No período, o Estado contabilizou ainda 48 doadores de múltiplos órgãos e 127 doadores de córneas.
Por Ana Clara Julião
