
Enquanto Campo Grande consolida a quarta menor taxa de desocupação entre as capitais, trabalhadores relatam a necessidade de dupla jornada e bicos para complementar a renda
O mercado de trabalho em Mato Grosso do Sul e no país atravessa um período de marcas históricas e mudanças estruturais. Segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nessa quinta-feira (27), a taxa nacional de desemprego recuou para 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, menor patamar histórico para o período. A população ocupada no país atingiu o recorde de 103,3 milhões de pessoas, impulsionada pelo mercado formal e pela informalidade, que respondeu por 65,6% das vagas abertas.
Em solo sul-mato-grossense, os indicadores são ainda mais baixos. A taxa de desemprego em MS recuou para 2,7% no segundo trimestre de 2026, caracterizando pleno emprego técnico, com 40 mil desocupados em uma força de trabalho de 1,48 milhão de pessoas. Na capital, Campo Grande, o Boletim Econômico apontou desocupação de 4,1% no encerramento do primeiro semestre, a quarta menor taxa entre as capitais brasileiras, atrás de Palmas, Vitória e Curitiba. Atualmente, 498 mil pessoas compõem a população ocupada na capital.
Dilema do trabalho informal
Apesar do otimismo, a criação de vagas com carteira assinada dá sinais de perda de ritmo. Em Campo Grande, o saldo de vagas formais medido pelo CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) foi de 3.541 no primeiro semestre de 2026, contra 6.326 no mesmo período do ano passado. O setor de serviços liderou na capital com saldo de 2.088 vagas, seguido pela construção civil com 1.467 contratações.
Mesmo com a expansão da renda média real em MS, estimada em R$ 3.840 no segundo trimestre, a estabilidade financeira assume contornos distintos de acordo com a área de atuação do trabalhador. O servidor público José Maurício Pereira, de Campo Grande, relata que sua remuneração atual é suficiente para manter a rotina familiar, embora exija planejamento. “Eu consigo manter as contas, relativamente mais ou menos assim, mas não com tudo o que eu gostaria. Não tenho luxo, mas tenho um conforto básico. Se eu recebesse uma proposta de emprego do setor privado pagando mais, eu não trocaria o meu cargo público, pois eu sempre sonhei com essa profissão e valorizo a estabilidade”, relata.
Por outro lado, a realidade de quem busca reinserção expõe as dificuldades e o peso do bico. Rodrigo Bueno, atualmente desempregado após atuar como porteiro em canteiros de obras de construção civil na capital, sobrevive temporariamente do seguro-desemprego, mas aceitaria retornar ao trabalho mesmo sem formalidade. “Eu procuro vagas na área de serviços gerais. Se surgir uma oportunidade agora, eu aceitaria na hora, mesmo que seja sem carteira assinada ou informal”, desabafa Bueno.

Por Enzo Pereira
