
A suspensão das exportações a partir desta quinta-feira (3), afeta um mercado de mais de R$ 4 bilhões e expõe os gargalos sanitários
O agronegócio brasileiro enfrenta um de seus momentos mais delicados. A partir desta quinta-feira (3), entra em vigor o bloqueio total imposto pela União Europeia às importações de carne bovina e de aves procedentes do Brasil. A medida, que também abrange ovos, mel, tripas e pescados, decorre da ausência de garantias suficientes sobre a conformidade da produção com as rígidas regras europeias contra o uso de antimicrobianos na pecuária.
O impacto financeiro é expressivo. Em 2025, o Brasil foi o segundo maior exportador de carne bovina para o bloco europeu, embarcando mais de 92 mil toneladas de produtos, o que representou o faturamento de 713 milhões de euros, o equivalente a R$ 4,29 bilhões. No total, considerando também as aves, o mercado europeu rendeu cerca de 1,8 bilhão de dólares aos frigoríficos brasileiros no ano passado. Contudo, o prejuízo mais profundo reside na perda de espaço em um mercado que funciona como vitrine de credibilidade regulatória e sanitária global.
A decisão de retirar o Brasil da lista de países aptos a exportar baseia-se na proibição do uso de antimicrobianos na criação de animais para promover o crescimento ou aumentar a produtividade. As normas do bloco também barram o tratamento de rebanhos com substâncias reservadas para infecções humanas, com o objetivo de combater a resistência de micróbios a medicamentos. Como o ciclo de produção da pecuária de corte é longo, analistas apontam que a suspensão da carne bovina poderá se estender por, pelo menos, dois anos, tempo médio estimado entre o nascimento e o abate dos animais.
O impacto em Mato Grosso do Sul
Em Mato Grosso do Sul, um dos líderes na produção pecuária, as entidades acompanham os desdobramentos do bloqueio com preocupação analítica, ressaltando o cumprimento das obrigações locais. O presidente da Acrissul (Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul), Guilherme Bumlai, avalia que o momento exige atenção às exigências regulatórias, embora a diversificação de clientes globais funcione como um amortecedor para o pecuarista.
“A suspensão pela União Europeia é um ponto de atenção, mas não vemos, neste momento, motivo para grande preocupação para o produtor. O Brasil vem ampliando e diversificando seus mercados internacionais e atravessamos um período de oferta mais restrita de boi, o que tende a dar sustentação aos preços. Evidentemente, todo mercado é importante e esperamos que essa questão regulatória seja resolvida rapidamente, porque quanto mais destinos abertos para a carne brasileira, melhor para toda a cadeia produtiva.”
A Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) destaca a importância de manter o canal comercial europeu aberto, devido à credibilidade que o bloco representa para o mundo. Em nota oficial, a entidade reforça o cumprimento rigoroso das exigências por parte do Estado. “A Famasul acompanha com atenção essa restrição às exportações brasileiras de carne bovina para a União Europeia a partir de setembro. Embora o bloco europeu não tenha o mesmo peso comercial de outros mercados, como o asiático, sua importância é estratégica, especialmente pela credibilidade associada ao cumprimento de rigorosos critérios ambientais, sociais e sanitários”.
Reversão do bloqueio
Já os órgãos responsáveis pelos outros produtos abrangidos na suspensão adotam um posicionamento de orientação aos produtores, para que se regularizem. A diretora do Laddan(Laboratório de Diagnóstico de Doenças Animais), Jacqueline Marques de Oliveira, responde pelos apicultores. Ela explica a importância de manter o cadastro do produtor atualizado.
“A Iagro (Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal) executa ações de vigilância ativa, previstas no Programa Nacional de Saúde das Abelhas, incluindo a avaliação técnica de apiários e a coleta de amostras para investigação de enfermidades”, afirmou.
A Famasul adota a visão que a solução para o problema depende diretamente das providências a serem tomadas pelo governo federal perante o bloco econômico. “Diante desse cenário, a expectativa é de que o Governo Federal e o Ministério da Agricultura adotem as providências necessárias e atendam às exigências estabelecidas pela União Europeia para que eventuais restrições sejam superadas o mais rápido possível”, estima a entidade.
Ainda conforme a Federação, o setor produtivo sul-mato-grossense já realiza um trabalho consistente nas área sanitária, produtiva, ambiental e social e está preparado para atender aos padrões exigidos internacionalmente.
“Por isso, entendemos que a retomada ou manutenção desse mercado depende, neste momento, da articulação diplomática. Manter uma boa relação comercial com a União Europeia é estratégico para Mato Grosso do Sul e para o Brasil”, finaliza a Federação.
Por Enzo Pereira
