Em 49 anos, Campo Grande ganhou espaço na Assembleia, mas interior continua responsável pela maior parte dos votos que levam deputados ao Legislativo

No dia 1º de janeiro de 1979, quando Mato Grosso do Sul foi oficialmente instalado, o Estado começava também a construir seu próprio mapa de poder. Naquele momento, 18 deputados tomaram posse como constituintes e passaram a trabalhar na elaboração da primeira Constituição estadual. Quase cinco décadas depois, a composição da Assembleia Legislativa que assumirá em 2027 mostra que esse mapa mudou: Campo Grande ganhou espaço, enquanto os municípios do interior continuam tendo papel decisivo para definir quem chega ao Parlamento.

A primeira Assembleia Constituinte foi formada por políticos com trajetórias espalhadas pelo território. Entre os 18 parlamentares estavam nomes ligados a Campo Grande, Dourados, Ponta Porã, Naviraí, Rio BrNayane Aleixoilhante, Três Lagoas, Paranaíba e Aquidauana, entre outros municípios. Que compõe principalmente as regiões do Pantanal, Bolsão, Grande Dourados e Conesul.

De três para 11

A Capital ainda não concentrava a força política que possui hoje. Na primeira legislatura, de 1979 a 1983, três dos 18 deputados tinham Campo Grande como principal base política.

Entre os 24 eleitos que assumirão em 2027, esse número sobe para 11. Considerando a região de Campo Grande, incluindo Sidrolândia, são 12 parlamentares, metade da futura composição da Assembleia.

Para Shandor Torok Moreira, pesquisador, procurador do Estado de Mato Grosso do Sul e doutor em Ciência Política, a transformação acompanha o próprio crescimento da Capital, mas não pode ser explicada somente pelo aumento da população.“O crescimento da presença de deputados ligados à Capital foi maior que o aumento de seu peso demográfico, de modo que a população explica apenas parte da mudança”, afirma.

Além do crescimento demográfico

A participação de Campo Grande na população estadual passou de cerca de 21% em 1980 para quase 33% em 2022. Além do crescimento populacional, a concentração do governo estadual, dos serviços e de atividades econômicas na Capital criou condições para a projeção de novas lideranças.

A mudança, porém, não aconteceu em linha reta. Segundo Shandor, a região de Campo Grande chegou a reunir 15 deputados na composição inicial de 2023 e terá 12 entre os eleitos para 2027. A oscilação mostra que, embora a Capital tenha ganhado peso no longo prazo, os polos do interior continuam disputando espaço.

Um Estado formado pelo interior

Na primeira legislatura, a distribuição das trajetórias políticas revelava um Estado menos concentrado. Era uma Assembleia que também carregava a história política do antigo Mato Grosso. Parte dos parlamentares já tinha experiência política antes da criação do novo Estado. Entre os constituintes estavam Londres Machado, Ramez Tebet, Rudel Trindade, Paulo Saldanha e outros nomes que tiveram participação na construção das primeiras instituições sul-mato-grossenses.

Londres Machado foi escolhido presidente da Assembleia Constituinte, enquanto Ramez Tebet ficou responsável pela relatoria geral da primeira Constituição. A Carta foi promulgada em 13 de junho de 1979 e, a partir daquele momento, a Constituinte passou oficialmente a exercer as funções de Assembleia Legislativa.

A própria atuação do Legislativo ajudaria a modificar o território que os deputados representavam. Em 1977, Mato Grosso do Sul tinha 55 municípios. Entre 1980 e 2003, novos municípios foram criados por leis de autoria parlamentar. Atualmente são 79 cidades, e a própria história oficial da ALEMS aponta que cerca de 30% dos municípios atuais surgiram nesse processo legislativo.

Assim, a Assembleia não apenas passou a representar um Estado que estava se formando. Ela também participou da construção administrativa desse território.

Dourados resiste como polo do interior

Se Campo Grande foi o principal ponto de concentração ao longo das décadas, Dourados aparece como a grande permanência entre os polos do interior.

A cidade não teve crescimento contínuo na representação parlamentar, mas manteve capacidade de formar lideranças e articular municípios próximos. Na composição que assumirá em 2027, a região Sul e da Grande Dourados continuam reunindo diferentes trajetórias políticas.

Entre os eleitos estão nomes ligados a Dourados, como Gianni Nogueira, Gleice Jane e Tiago Botelho, além de parlamentares com trajetórias em municípios como Rio Brilhante, Itaporã, Ponta Porã, Ivinhema e Iguatemi. Para o cientista político, Dourados “permaneceu como o principal polo político do interior”, ainda que sua presença tenha oscilado entre as diferentes legislaturas.

Outros centros tradicionais, porém, perderam espaço. Aquidauana, que tinha dois deputados ligados ao município na primeira legislatura, terá um em 2027, o ex-prefeito, Odilon Ribeiro. Naviraí e Amambai, que tinham representantes com trajetória local na formação do Estado, deixam de aparecer como principal base de um eleito. A mesma perda relativa ocorre na região de Paranaíba e Cassilândia.

Ponta Porã e Corumbá mantêm uma base cada. Já a região de Três Lagoas preserva duas trajetórias na futura composição, associadas a Ângelo Guerreiro, que construiu sua carreira política no município, e Caravina, cuja trajetória passou por Bataguassu.

Mesmo quando o número de representantes se mantém, porém, é preciso considerar que a Assembleia cresceu de 18 para 24 cadeiras. Assim, uma região que mantém duas cadeiras passa a ocupar uma fatia menor do Legislativo.

Capital concentra carreiras, interior concentra votos

O avanço de Campo Grande não significa que o interior tenha perdido importância eleitoral. É justamente essa diferença entre base política e origem dos votos que ajuda a explicar o atual cenário.

Em 2026, 72,4% dos votos recebidos pelos 24 deputados eleitos vieram de municípios do interior. Mesmo entre os 11 parlamentares classificados com Campo Grande como principal base política, 55,3% dos votos foram obtidos fora da Capital. “Ter a carreira ligada à Capital não significa depender principalmente do eleitorado da Capital”, explica Shandor.

Campo Grande foi o município que mais contribuiu individualmente para a votação de 13 dos 24 eleitos. Ainda assim, apenas quatro receberam na Capital mais da metade de seus votos. Para os outros 20, a soma dos municípios do interior foi majoritária.

A situação pode ser observada também em casos de lideranças fortemente identificadas com determinados polos regionais. Ângelo Guerreiro, por exemplo, recebeu cerca de 72% de seus votos em Três Lagoas.

Para o pesquisador, isso mostra que a geografia das carreiras políticas é hoje mais concentrada do que a geografia dos votos. A consequência é que não basta dizer que determinado município “não tem representante”. Uma cidade pode não ter um deputado cuja trajetória tenha começado ali e, ainda assim, ser importante para a eleição de vários parlamentares.

Quem nasce fora também constrói raízes em MS

Outra característica que atravessa os 49 anos do Estado é a presença de políticos nascidos fora de Mato Grosso do Sul. Na primeira legislatura, sete dos 18 deputados nasceram fora do território que hoje corresponde ao Estado. Entre os eleitos para 2027, são nove de 24, seis deles nascidos em São Paulo.

O número chama atenção porque, no meio desse percurso, a presença de políticos nascidos fora chegou a ser ainda maior. Nas composições de 2011 e 2015, eram 17 dos 24 deputados. Para Shandor, entretanto, o local de nascimento não pode ser confundido com a origem política. “Alguém nascido aqui pode pertencer a uma família política antiga; alguém que veio de fora pode ter construído toda a sua vida pública no Estado”, afirma.

A formação de Mato Grosso do Sul foi marcada por migrações. Pessoas vindas de outros Estados chegaram, estabeleceram atividades profissionais e econômicas e passaram a construir vínculos políticos nos municípios onde viviam.

Londres Machado é um exemplo dessa diferença. Nascido em Rio Brilhante, sua trajetória política esteve historicamente ligada a outras bases do interior, especialmente Fátima do Sul. Ele também representa uma das maiores permanências da política sul-mato-grossense: esteve na primeira legislatura e foi eleito novamente para a Assembleia que tomará posse em 2027.

De 10 regiões para sete

A comparação entre as duas pontas da história também mostra uma redução no número de regiões que funcionam como principais bases dos parlamentares. Segundo o levantamento apresentado por Shandor, na classificação pelas regiões do IBGE, dez regiões apareciam como base principal de deputados em 1979. Entre os eleitos para 2027, são sete.

A mudança aponta para uma concentração maior das carreiras políticas em alguns polos, principalmente Campo Grande e Dourados. Mas o mapa eleitoral continua mais espalhado.

49 anos depois

A história da Assembleia acompanha essa transformação. A Casa que começou em 1979 com 18 constituintes funcionou inicialmente nas instalações da Missão Salesiana, em Campo Grande, e depois ganhou sua sede definitiva no Palácio Guaicurus. Ao longo das décadas, passou pela segunda Constituição estadual, pela chegada à internet, pela criação de seus veículos de comunicação, pela votação eletrônica e pela digitalização de parte das atividades.

Também atravessou acontecimentos que exigiram mudanças na forma de funcionamento, como a pandemia de Covid-19, e participou de discussões estratégicas para o Estado, como as relacionadas ao Corredor Bioceânico.

A representação feminina também avançou: as primeiras duas mulheres chegaram à Assembleia em 1987, Marilu Guimarães e Marilene Coimbra. Desde então, 11 mulheres foram eleitas deputadas estaduais em Mato Grosso do Sul.

Por Nayane Aleixo

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